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Lendas e Narrativas (Tomo I) by Alexandre Herculano

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"Architecto do mosteiro de Sancta Maria, ja o nao sou; vossa
merce me tirou esse encargo: sabedor, nunca o fui, pelo menos
muitos assim o creem, e alguns o dizem: dos titulos que me daes
so me cabe hoje o de honrado; que esse, merce de Deus, e meu, e
fora infamia rouba-lo a quem ja nao pode pegar em um montante
para defende-lo."

"Sei, meu bom cavalleiro, que estaes mui torvado comigo por dar
a outrem o cargo de mestre das obras do mosteiro: n'isso cria
eu fazer-vos assignalada merce. Mas venhamos ao ponto: sabeis
que a abobada do capitulo desabou hontem a noite?"

"Sabia-o, senhor, antes do caso succeder."

"Como e isso possivel?!"

"Porque todos os dias perguntava a alguns desses poucos obreiros
portugueses que ahi restam, como ia a feitura da casa capitular:
no desenho della pozera eu todo o cabedal de meu fraco ingenho,
e este aposento era a obra prima de minha imaginacao: por elles
soube que a traca primitiva fora alterada, e que a junctura das
pedras era feita por modo diverso do que eu tinha apontado:
prophetisei-lhes entao o que havia de acontecer. E--accrescentou
o velho com um sorriso amargo--muito fez ja o meu successor em
por tal arte lhe por o remate, que nao desabasse antes das vinte
e quatro horas."

"E tinheis vos por certo que se vossa traca se houvera seguido,
essa desmesurada abobada nao viria a terra?"

"Se estes olhos nao tivessem feito com que eu fosse posto de
banda como uma carta de testamento antiga, que se atira, por
inutil, para o fundo de uma arca, a pedra do fecho dessa abobada
nao teria de vir esmigalhar-se no pavimento antes de sobre ella
pesarem muitos seculos; mas os de vosso conselho julgaram que
um cego para nada podia prestar."

"Pois se ousaes levar a cabo vosso desenho, eu ordeno que o facaes,
e desde ja vos nomeio de novo mestre das obras do mosteiro, e
David Ouguet vos obedecera."

"Senhor rei--disse o cego, erguendo a fronte, que ate alli tivera
curvada:--vos tendes um sceptro e uma espada; tendes cavalleiros
e besteiros; tendes ouro e poder: Portugal e vosso, e tudo quanto
elle contem, salvo a liberdade de vossos vassallos: nesta nada
mandaes. Nao!... vos digo eu: nao serei quem torne a erguer essa
derrocada abobada! Os vossos conselheiros julgaram-me incapaz
d'isso: agora elles que a alevantem."

As faces de D. Joao I tingiram-se do rubor do despeito.

"Lembrae-vos, cavalleiro,--disse elle--de que falaes com D. Joao
I."

"Cuja coroa--acudiu o cego--lhe foi posta na cabeca por lancas,
entre as quaes reluzia o ferro da que eu brandia. D. Joao I e
assaz nobre e generoso, para nao se esquecer de que nessas lancas
estava escripto:--os vassallos portuguezes sao livres."

"Mas--tornou elrei--os vassallos que desobedecem aos mandados
daquelle em cuja casa tem acostamento[3], podem ser privados
de sua moradia..."

"Se dizeis isso pela que me destes, tirae-m'a; que nao vo-la pedi
eu. Nao morrerei de fome; que um velho soldado de Aljubarrota
achara sempre quem lhe esmole uma mealha; e quando haja de morrer
a mingua de todo humano soccorro, bem pouco importa isso a quem ve
arrancarem-lhe, nas bordas da sepultura, aquillo por que trabalhou
toda a vida, um nome honrado e glorioso."

Dizendo isto, o velho levou a manga do gibao aos olhos bacos,
e embebeu nella uma lagryma mal sustida. Elrei sentiu a piedade
coar-lhe no coracao comprimido de despeito, e dilatar-lh'o
suavemente. Uma das dores d'alma, que em vez de a lacerar a consolam,
e sem duvida a compaixao.

"Vamos, bom cavalleiro,--disse elrei pondo-se em pe--nao haja
entre nos doestos. O architecto do mosteiro do Sancta Maria vale
bem o seu fundador! Houve um dia em que nos ambos fomos pelejadores:
eu tornei celebre o meu nome, a consciencia m'o diz, entre os
principes do mundo, porque segui avante por campos de batalha;
ella vos dira tambem que a vossa fama sera perpetua, havendo
trocado a espada pela penna, com que tracastes o desenho do grande
monumento da independencia e da gloria desta terra. Rei dos homens
do acceso imaginar, nao desprezeis o rei dos melhores cavalleiros,
os cavalleiros portuguezes! Tambem vos fostes um delles; e
negar-vos-heis a proseguir na edificacao desta memoria, desta
tradicao de marmore, que ha-de recordar aos vindouros a historia
de nossos feitos? Mestre Affonso Domingues, escutae os ossos de
tantos valentes, que vos accusam de trahirdes a boa e antiga
amizade: vem de todos os valles e montanhas de Portugal o soido
desse queixume de mortos; porque, nas contendas da liberdade,
por toda a parte se verteu sangue e foram semeados cadaveres de
cavalleiros! Eia, pois: se nao perdoaes a D. Joao I uma supposta
affronta, perdoae-a ao Mestre d'Aviz, ao vosso antigo capiiao,
que em nome da gente portugueza vos cita para o tribunal da
posteridade, se refusaes consagrar outra vez a patria vosso
maravilhoso ingenho, e que vos abraca como antigo irmao nos combates,
porque certo cre que nao quereis perder na vossa velhice o nome
de bom e honrado portuguez."

Elrei parecia grandemente commovido, e talvez involuntariamente,
lancou um braco ao redor do pescoco do cego, que solucava e tremia
sem soltar uma so palavra.

Houve uma longa pausa: todos se tinham posto em pe quando elrei
se erguera, e esperavam anciosos o que diria o velho. Finalmente
este rompeu o silencio:

"Vencestes, senhor rei, vencestes!... A abobada da casa capitular
nao ficara por terra. Oh meu mosteiro da Batalha, sonho querido
de quinze annos de vida entregues a cogitacoes, a mais formosa
das tuas imagens sera realisada, sera duradoura como a pedra em
que vou estampa-la! Senhor rei, as nossas almas entendem-se:
as unicas palavras harmoniosas e inteiramente suaves, que tenho
ouvido ha muitos annos, sao as que vos sairam da boca: so D. Joao
I comprehende Affonso Domingues; porque so elle comprehende a valia
destas duas palavras formosissimas, palavras de anjos--patria e
gloria. A passada injuria a vossos conselheiros a attribui sempre,
que nao a vos, posto que de vos, que ereis rei, me queixasse:
varre-la-hei da memoria, como o entalhador varre as lascas e a
pedra moida pelo cinzel de cima do vulto, que entalhou em fuste
de columna arrendada. Que me restituam os meus officiaes e obreiros
portuguezes; que portuguez sou eu, portugueza a minha obra! De hoje
a quatro mezes podeis voltar aqui, senhor rei, e ou eu morrerei,
ou a casa capitular da Batalha estara firme, como e firme a minha
crenca na immortalidade e na gloria."

Elrei apertou entao entre os bracos o bom do cego, que procurava
ajoelhar a seus pes. Era a attraccao de duas almas sublimes,
que voavam uma para a outra. Por fim D. Joao I fez um signal ao
pagem, que se aproximou:

"Alvaro Vaz, acompanhae este nobre cavalleiro a sua pousada.
E vos, mestre mui sabedor, ide repousar: dentro de quinze dias
vossos antigos officiaes terao voltado de Guimaraes para cumprirem
o que mandardes. Mui devoto padre prior,--continuou elrei,
voltando-se para Fr. Lourenco--entendei que d'ora avante Affonso
Domingues, cavalleiro de minha casa, torna a ser mestre das obras
do mosteiro de Sancta Maria da Victoria, em quanto assim lhe
aprouver."

O prior fez uma profunda reverencia.

A alegria tinha tolhido a voz do architecto: diante de toda a
corte elrei o havia desaffrontado, e ja, sem desdouro, podia
acceitar o encargo de que o tinham despojado. Com passos incertos,
e seguro ao braco do pagem, saiu do aposento, feita venia a elrei.

Este deu immediatamente ordem para a partida; e quando todos
iam saindo, o prior chegou-se ao velho chanceller, e disse-lhe
em tom submisso:

"Doutor Johannes a Regulis, espero que narreis fielmente a rainha
o que succedeu, e a certifiqueis de quanto me custa ver tirada
a regua magistral a mestre Ouguet..."

"Foi--tornou o politico discipulo de Bartholo--mais uma facanha
de D. Joao I: comecou por brigar com um louco, e acabou abracando-o,
por lhe ver derramar uma lagryma. Bem trabalho por fazer do Mestre
de Aviz um rei; mas sae-me sempre cavalleiro andante. Nao lhe
succedera isto se, em vez de passar a mocidade em pelejas, a
houvera passado a estudar em Bolonha. Tendo-lhe dicto mil vezes
que e preciso lisongear os inglezes, porque carecemos delles:
a tudo me responde com dizer que com Deus e o proprio montante
tem em nada Castella: todavia a gente ingleza ufanava-se de ser
David Ouguet o mestre desta edificacao; e que importava que ella
fosse mais ou menos primorosa a troco de contentarmos os que
comnosco estao liados? Quanto a vos, reverendo prior, ficae
descancado: tudo fia a rainha de vossa prudencia, que e muita,
posto que nao vistes Bolonha. Vamos, reverendissimo."

A corte ja tinha saido; e os dous velhos seguiram-na ao longo
daquellas arcadas, conversando um com o outro em voz baixa.

[1] Annequim era o bobo do paco em tempo de D. Fernando,
a quem sobreviveu.

[2] Coixo.--Fui vista ao cego, e pee ao copo. Trad. do
livro de Job. Fragmento do seculo 14.

[3] Acostamento, e o mesmo que moradia.



O VOTO FATAL.


Rica de galas, a primavera tinha vestido os campos da Estremadura
do vico de suas flores: a madresilva, a rosa agreste, o rosmaninho,
e toda a casta de boninas teciam um tapete odorifero e immenso por
charnecas, comoros, e sapaes, e pelo chao das matas e florestas,
que agitavam as frontes somnolentas com a brisa de manhan purissima,
mostrando aos olhos um baloucar de verdura compassado com o das
searas rasteiras, que mais longe, pelas veigas e outeiros, ondeavam
suavemente. Eram sete de Maio da era de Cesar de 1439, ou, como
os letrados diziam, do anno da redempcao, 1401. Quatro mezes
certos se contavam nesse dia, depois daquelle em que, n'uma das
quadras do aposento real no mosteiro da Batalha, se passara a
scena, que no antecedente capitulo narramos, e que extrahimos
do famoso manuscripto mencionado no capitulo II, com aquella
pontualidade e verdade, com que o grande chronista F. Bernardo
de Brito citava so documentos innegaveis e auctores certissimos,
e com aquella imparcialidade e exaccao, com que o philosopho de
Ferney referia e avaliava os factos em que podia interessar a
religiao christan.

Assistiu o leitor a promessa que mestre Affonso Domingues fez a
D. Joao I de que dentro de quatro mezes lhe daria posto o remate
na abobada da casa capitular de Sancta Maria da Victoria, e lembrado
estara de como elrei lhe promettera, tambem, mandar vir de Guimaraes
todos os officiaes portuguezes, que, despedidos da Batalha por
mestre Ouguet como menos habilidosos que os estrangeiros, haviam
sido mandados para a obra, posto que grandiosa, menos importante de
Sancta Maria da Oliveira, hoje desaportuguesada e caiada e dourada
e mutilada pelo mais barbaro abuso da riqueza e da ignorancia
clerical. A palavra do Mestre d'Aviz nao voltara atraz, nao por
ser palavra de rei, mas por ser palavra de cavalleiro portuguez
daquelles tempos, em que tao nobres affectos e instinctos havia
nos coracoes de nossos avos, que de bom grado lhes devemos perdoar
a rudeza. Tendo partido de Alcobaca para Guimaraes, onde nesse
anno se ajunctavam cortes, apenas ahi chegara tinha mandado partir
para Sancta Maria da Victoria os officiaes e obreiros mais
entendidos, que vieram apresentar-se a mestre Affonso.

Este, resolvido tambem a cumprir o promettido, mettera maos a
obra. O capitulo foi desentulhado: aproveitaram-se as pedras da
primeira edificacao que era possivel aproveitar, lavraram-se outras
de novo, armaram-se os simples, e muito antes do dia aprazado o
fecho ou remate da abobada repousava no seu logar.

Durante estes quatro mezes os successos politicos tinham trazido
D. Joao I a Santarem, onde se fizera prestes com bom numero de
lancas, besteiros, e peoes para ir ajunctar-se com o Condestavel,
e entrarem ambos por Castella, cuja guerra tinha recomecado, por
se haverem acabado as treguas. Para esta entrada se apparelhara
elrei com uma lustrosa companhia de seus cavalleiros, e caminhando
pela margem direita do Tejo, acampara juncto a Tancos, onde se
havia de construir uma ponte de barcas para passar o exercito,
e seguir avante ate o Crato, que era o logar aprazado com o
Condestavel, para junctos irem dar sobre Alcantara.

Em Val-de-Tancos estava assentado o arraial da hoste d'elrei: os
petintaes, que tinham vindo de Lisboa, trabalhavam na ponte de
barcas, que se deviam lancar sobre o Tejo; os besteiros limpavam
suas bestas, e folgavam em luctas e jogos; os cavalleiros corriam
pontas, atiravam ao tavolado, monteavam, ou matavam o tempo em
banquetes e beberronias. Tinham chegado aquelle sitio a cinco
de Maio, e no seguinte dia elrei partira afforradamente para
a Batalha, porque nao se esquecera de que os quatro mezes, que
pedira Affonso Domingues para alevantar a abobada, eram passados,
e fora avisado por Fr. Lourenco de que a obra estava acabada, mas
que o architecto nao quizera tirar os simples senao na presenca
d'elrei.

Antes de partir de Lisboa, D. Joao mandara sair dos carceres, em
que jaziam, bom numero de criminosos e de captivos castelhanos,
que, com grande pasmo dos povos, e rodeados por uma grossa manga de
besteiros, tomaram o caminho da Batalha, sem que ninguem aventasse
o motivo d'isto. Todavia elle era obvio: elrei pensou que, assim
como a abobada do capitulo desabara da primeira vez, passadas
vinte quatro horas depois de desamparada, podia agora derrocar-se
em cima dos obreiros no momento de lhe tirarem os prumos e travezes
sobre que fora edificada. Sollicito pela vida de seus vassallos;
parente do povo por sua mae, e crendo por isso que a morte de
um popular tambem tinha seu trance de agonia, e que lagrymas
de orphaos pobres eram tao amargas, ou porventura mais que as
de infantes e senhores, nao quiz que se arriscassem senao vidas
condemnadas, ou pela guerra, ou pelos tribunaes, e que naquella
se tinham remido pela covardia, e nestes pela piedade ou antes
esquecimento dos juizes. E se da primeira vez lhe nao occorrera
esta idea, fora porque tambem na memoria de obreiros portuguezes
nao havia lembranca de ter desabado uma abobada apenas construida.

Seguido so por dous pagens, D. Joao I atravessou a villa de Ourem
pelas horas mortas do quarto de modorra, e antes do meio-dia
apeou-se a portaria do mosteiro.

Os officiaes, que trabalhavam em varios lavores, pelos telheiros
e casas ao redor do edificio, viram passar aquelle cavalleiro e
os dous pagens, mas nao o conheceram: D. Joao I vinha cuberto
de todas as pecas, e ao galgar o ginete pelo outeiro abaixo,
tinha descido a viseira.

"Benedicite!--dizia elrei, batendo devagarinho a porta da cella
de Fr. Lourenco.

"Pax vobis, domine!--respondeu o prior que logo conheceu elrei,
e veio abrir a porta.

"Nao vos incommodeis, reverendissimo--disse D. Joao, entrando
na cella, e sentando-se em um tamborete.--Deixae-me resfolegar
um pouco, e dae-me uma vez de vinho."

"Nao vos esperava tao de salto;--tornou Fr. Lourenco: e abrindo
um armario, tirou delle uma borracha e um cangirao de madeira,
que encheu de vinho, e pegando com a esquerda em uma escudela de
barro de Estremoz[1] cheia de uma especie de bolo feito de mel,
ovos, e flor de farinha, apresentou a elrei aquella collacao.

"Excellente almoco:--dizia elrei, descalcando o guante ferrado,
e cravando a espacos os dedos dentro da escudela, d'onde tirava
bocados do bolo, que ajudava com alentados beijos dados no cangirao.
Depois que cessou de comer, limpando a mao ao forro do tonelete,
poz-se em pe, em quanto Fr. Lourenco guardava os despojos daquella
batalha:

"Bofe--disse D. Joao, rindo--que nao ando a meu talante, senao
com o arnez as costas! Cada vez que o visto, parece-me que torno a
mocidade, e que sou o Mestre d'Aviz, ou antes o simples cavalleiro,
que, confiado so em Deus, corria solto pelo mundo, monteando
edomas[2] inteiras, e tendo sobre a consciencia so os peccados
de homem, e nao os escrupulos de rei."

"E entao--atalhou o prior--o vosso confessor Fr. Lourenco era
um pobre frade, cujos unicos cuidados se encerravam em saber
as horas do coro, e em ler as sagradas escripturas, porem que
hoje tem de velar muitas noites, pensando no modo de nao deixar
affrouxar a disciplina e boa governanca de tao alteroso mosteiro.
Mas, segundo vosso recado, que hontem recebi, vindes para assistir
ao tirar dos simples da mui famosa abobada, o que mestre Domingues
aporfia em so fazer perante vos?"

"A isso vim, porem de espaco; que nao sera nestes cinco dias,
que esteja prompta a ponte de barcas, que mandei lancar no Tejo
para passar minha hoste. Durante elles, com vossos mui religiosos
frades me apparelharei para a guerra, enthesourando oracoes e
recebendo absolvicao de meus erros."

"Os principes pios--acudiu o prior com ar de compunccao--sao sempre
ajudados de Deus, principalmente contra herejes e scismaticos,
como os perros dos castelhanos, que a Virgem Maria da Victoria
confunda nos infernos."

"Amen!--respondeu devotamente elrei.

"Avisarei, pois, mestre Affonso de vossa vinda, para que mande
por tudo em ordenanca de se tirarem os simples: elle me pediu
que o mandasse chamar apenas fosseis chegado."

Fr. Lourenco saiu, e d'ahi a pouco voltou acompanhado do architecto,
que um rapaz guiava pela mao.

"Guarde-vos Deus, mestre Affonso Domingues!--disse elrei, vendo
entrar o cego--Aqui me tendes para ver acabada a feitura da
mirifica abobada do capitulo de Sancta Maria, cujos simples nao
quizestes tirar senao em minha presenca."

"Beijo-vo-las, senhor rei, pela merce: dous votos fiz se levasse
a cabo esta feitura; era esse um delles..."

"E o outro?--atalhou elrei.

"O outro, dir-vo-lo-hei em breve; mas por ora permitti que para
mim o guarde."

"Sao negocios de consciencia:--acudiu o prior.--Elrei nao quer,
por certo, fazer-vos quebrar vosso segredo."

D. Joao I fez um signal de assentimento ao parecer do seu antigo
padre espiritual.

Elrei, o prior, e o architecto ainda se demoraram um pedaco falando
acerca da obra, e do que cumpria fazer no proseguimento della;
mas o cego dissera o que quer que fora em voz baixa ao rapaz
que o acompanhava, o qual saira immediatamente, e que so voltou
quando os tres acabavam a conversacao.

"Fernao d'Evora--disse o cego, sentindo-o outra vez ao pe de
si--fizeste o que te ordenei, e deste a teu tio Martim Vasques
o meu recado?"

"Senhor, si! Envia-vos elle a dizer que tudo esta prestes."

"Entao vamos a ver se desta feita temos mais perduravel abobada."

Isto dizia elrei saindo da cella de Fr. Lourenco, e seguindo ao
longo do claustro. Ja a este tempo se tinha espalhado no mosteiro
a nova da sua chegada, e os frades comecavam de ajunctar-se para
o cortejarem. Do mosteiro rompera a noticia, e se espalhara na
povoacao, aonde concorrera muita gente dos arredores, principalmente
de Aljubarrota, por ser dia de mercado: de modo que quando elrei
desceu a crasta ja alli se achavam apinhados homens e mulheres,
que queriam ve-lo, e ainda mais saber se desta vez a abobada
vinha ao chao, para terem que contar aos vizinhos e vizinhas da
sua terra.

As portas da casa do capitulo estavam abertas: via-se dentro
della tal machina de prumos, travezes, andaimes, cabrestantes,
escadas, que bem se podera comparar a composicao daquelles simples
a fabrica do mais delicado relogio. A porta, que dava para a
crasta, estava um homem em pe, que se desbarretou apenas viu
elrei, a cuja direita vinha o architecto, seguido por Fr. Lourenco
e por outros frades.

O pequeno Fernao d'Evora disse algumas palavras a Affonso Domingues,
o qual lhe respondeu em voz baixa. Entao o rapaz acenou ao homem
desbarretado, que se chegou timidamente ao cego. Era um mancebo,
que mostrava ter de idade, ao mais, vinte cinco annos; de rosto
comprido, tez queimada, nariz aquilino, olhos pequenos e vivos.
Chegando-se ao cego, este o tomou pela mao, e voltando-se para
elrei, disse:

"Aqui tendes, senhor, a Martim Vasques, o melhor official de
pedraria que eu conheco; o homem que, com mais alguns annos de
esperiencia, sera capaz de continuar dignamente a serie dos
architectos portuguezes."

"E debaixo de meu especial amparo estara Martim Vasques--respondeu
elrei--que por honrado me tenho com haver em meus senhorios homens
que vos imitem.[3]"

Ainda bem nao eram acabadas estas palavras, sentiu-se um sussurro
entre o povo, que girava livremente pela crasta, e que se enfileirou
aos lados: chegava a gente que devia tirar os simples.

Entre duas alas de besteiros vinha um bom numero de homens, magros,
pallidos, rotos e descalcos: o porte de alguns era altivo, e
em seus farrapos se divisava a razao d'isso: eram besteiros
castelhanos, que em diversos recontros e pelejas tinham cahido
nas maos dos portuguezes. As guerras entre Portugal e Castella
assemelhavam-se as guerras civis de hoje: para vencidos nao havia
nem caridade, nem justica, nem humanidade: ser mettido em ferros
era entao uma ventura para o pobre prisioneiro; porque os mais
delles morriam assassinados pelo povo desenfreado, em vinganca
dos maus tractos que em Castella padeciam os captivos portuguezes.
Com os castelhanos vinham d'envolta varios criminosos condemnados
a morte por suas malfeitorias.

"Misericordia!--bradou toda aquella multidao, ao passar por elrei:
e cahiram de brucos sobre as lageas do pavimento.

"Comvosco a tenho, mesquinha gente:--disse elrei commovido--Se
tirardes os simples, que vedes acola, a abobada nao desabar sobre
vos, soltos e livres sereis. Erguei-vos, e confiae na sciencia do
grande architecto que fez essa mirifica obra. Mandar-vos comprar
vossa soltura a custo de tao leve risco, quasi que e o mesmo que
perdoar-vos."

Os presos ergueram-se; mas a tristeza lhes ficou embebida no
coracao, e espalhada nas faces: o terror fazia-lhes crer que ja
sentiam ranger e estalar as vigas dos simples, e que, as primeiras
pancadas, as pedras desconformes da abobada, desatando-se da
immensa volta, os esmagariam, como o pe do quinteiro esmaga a
lagarta enroscada na planta vicosa do horto.

Neste momento quatro forcosos obreiros chegaram a porta do capitulo,
trazendo sobre uma paviola uma grande pedra quadrada. Martim
Vasques, que ja la estava, gritou ao cego architecto:

"Mui sabedor mestre Affonso, que quereis se faca do canto, que
para aqui mandastes trazer?"

"Assentae-o bem debaixo do fecho da abobada, no meio desse claro,
que deixam os prumos centraes dos simples."

Os obreiros fizeram o que o architecto mandara: este entao voltou-se
para elrei, e disse:

"Senhor rei, e chegado o momento de vos declarar meu segundo
voto. Pelo corpo e sangue do Redemptor jurei que, assentado sobre
a dura pedra, debaixo do fecho da abobada, estaria sem comer nem
beber durante tres dias, desde o instante em que se tirassem
os simples. De cumprir meu voto ninguem podera mover-me. Se essa
abobada desabar, sepultar-me-ha em suas ruinas: nem eu quizera
encetar, depois de velho, uma vida deshonrada e vergonhosa. Esta
e a minha firme resolucao."

Dizendo isto, o cego travou com forca do braco de Fernao d'Evora,
e encaminhou-se para a porta do capitulo.

"Esperae, esperae!--bradou elrei.--Estaes louco, dom cavalleiro?
Quem, se vos morrerdes, continuara esta fabrica, tao formosa
filha de vosso engenho?"

"Mestre Ouguet:--tornou o cego, parando.--Nao sou tao vil que
negue seu saber e habilidade: se a abobada desabar segunda vez,
ninguem no mundo e capaz de a fechar com uma so volta, e para
a firmar sobre uma columna erguida no centro, mestre Ouguet o
fara. Quanto ao resto do edificio, fazei senhor rei que se prosiga
meu desenho: e o que ora vos peco tao somente."

E o velho e o seu guia sumiram-se por entre as bastas vigas,
que sustinham as traves dos simples: elrei, Fr. Lourenco, e os
mais frades ficaram atonitos e calados.

"Que tao honrado mestre corra parelhas no risco com esses perros
castelhanos cousa e que se nao pode soffrer: mas o voto e voto,
senao..."

Estas palavras partiam da boca d'uma gorda velha, cuja tez
avermelhada dava indicios de compleicao sanguinea e irritavel,
e que de maos mettidas nas algibeiras, na frente de uma das alas
do povo presenceava o caso.

"Tendes razao, tia Brites d'Almeida; e por ser voto me calo
eu:--acudiu elrei, voltando-se para a velha.--Mas juro a Christo,
que estou espantado de so agora vos ver! Porque me nao viestes
falar?"

"Perdoe-me vossa merce:--replicou a velha.--Eu vim trazer pao a
feira, e ahi souhe da chegada de vossa real senhoria. Corri ...
se eu correria para vos falar! Mas estes bocas abertas nao me
deixaram passar. Abrenuncio! Depois estive a olhar... Parecieis-me
carregado de semblante. Que e isso? Temos novas voltas com os
excommungados castelhanos? Se assim e, trosquiae-mos outra vez
por Aljubarrota, que a pa nao se quebrou nos sete que mandei
de presente ao diabo, e ainda la esta para o que der e vier."

Soltando estas palavras, a velha tirou as maos das algibeiras,
e cerrando os punhos, ergueu os bracos ao ar, com os meneios
de quem ja brandia a tremebunda e patriotica pa de forno, que
hoje e gloria e brasao da gothica villa de Aljubarrota.

"Podeis dormir descancada, tia Brites:--respondeu elrei,
sorrindo-se.--Bem sabeis que sou portuguez e cavalleiro, e a
gente de nossa terra e cortez: elrei de Castella veio visitar-nos
varias vezes: e agora eu ando na demanda de lhe pagar com usura
suas visitacoes."

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Elliott Kastner obituary

John Makinson says that if people want to read using new technology, that's what publishers must give them

Penguin this week celebrates its 75th year and is marking the anniversary by repackaging a series of seminal books from the 1960s to the 1980s. Although the company might afford itself a brief look backwards, it feels as though there is little room for nostalgia in book publishing now, as the industry turns its face firmly – and apprehensively – to the future.

Amazon last week announced sales of ebooks on its US site had outnumbered hardbacks for the first time, stunning casual observers, even if it had not been entirely unexpected in the trade.

The launch of the iPad has added a sense of urgency. Where music went first, books are set to follow, although Penguin and other publishers would hope without the same devastating effects. Amazon this week launched a cheaper, more lightweight version of its Kindle ebook reader and a digital store on its UK site, while others, including Google, are muscling in. Digital book sales are still less than 1% of Penguin, but the direction of the market is clear. In the US, digital books already account for 6% of consumer sales.

Penguin chief executive John Makinson says he is a convert. The day after we meet he is on his way to India, as part of David Cameron's delegation, and had loaded titles on to his iPad, including a manuscript by John le Carré and some Portuguese classics (in English) ahead of Penguin launching a range in Brazil. He is also reading Lord Mandelson's diary. It simply makes sense, he says, instead of carting an armful of books in your carry-on luggage.

Innovation

"It does redefine what we do as publishers and I feel, compared with most of my counterparts, more optimistic about what this means for us," he says. "Of course there are issues around copyright protection and there are worries around pricing and around piracy, royalty rates and so on, but there is also this huge opportunity to do more as publishers."

Publishing, he says, must embrace innovation: "I am keen on the idea that every book that we put on to an iPad has an author interview, a video interview, at the beginning. I have no idea whether this is a good idea or not. There has to be a culture of experimentation, which doesn't come naturally to book publishers. We publish a lot of historians, for example. They love the idea of using documentary footage to illustrate whatever it is they're writing about."

The very definition of a book is up for grabs he says, although the company has just published a version of Ken Follett's The Pillars of the Earth for the iPad in the US that might provide clues – and horrify traditionalists. It includes scenes from a TV adaptation embedded in the text, as well as extras including the show's music soundtrack and Follett's video diary during the making of the series.

For now, Makinson says, digital books are expanding the market; hardback sales in the US are up this year, despite the march of ebooks. Piracy is not yet a significant issue and lessons have been learned from the music business.

"You have to give the consumer what the consumer wants – you can't tell the consumer to go away. So we didn't participate in this experiment where a number of publishers deferred publication of the ebook until a certain number of months after the hardcover publication. I thought that was a very bad idea. If the consumer wants to buy a book in an electronic format now, you should let the consumer have it."

He has added confidence, because with tablets such as the iPad, consumers are used to paying a subscription to the wireless operator and for "apps", creating a more benign environment than the wild west of the PC, where users are used to getting everything for free.

Penguin's profits more than doubled to £44m in the first half of the year. The company gained market share, but one reason for the dramatic improvement was the outsourcing of some design and production to India last year; the company now has around 100 designers in Delhi making books for Dorling Kindersley, belying the idea that Britain can at least live off its creative industries. Makinson defends the decision and says DK is now back in profit, which means it can reinvest in Britain: "We can't pretend we can do everything here. In order to be internationally competitive, some work needs to be done in other places."

About 8% of the publisher's sales are from its classics, including Jane Austen and Charles Dickens, and revenues are still growing, despite much of the copyright being in the public domain. It is launching the range in Mandarin, Korean and Portuguese. But it is not all highbrow. What would Penguin's founder, Sir Allen Lane, whose aim was to publish quality paperbacks for the masses, have made of Penguin putting out books "by" Peter Andre or Ant & Dec?

"Allen Lane's view was that we should publish good writing of all kinds for all audiences at affordable prices," Makinson says. "I'm not saying he would necessarily have approved every single publishing decision we take, but would he have approved of Penguin being a very democratic publishing company, publishing for lots of different tastes? I think he would definitely have approved."

Makinson has long been mentioned as a successor to Dame Marjorie Scardino, who runs Pearson, Penguin's parent company. Her departure has been a perennial question, though she has defied the investment community's chattering classes by staying in her post for well over a decade. She has also confounded expectations by keeping Penguin and the Financial Times in a group dominated by educational publishing. Makinson says it now makes more sense than ever for Penguin to remain part of the group, as the digital era draws each division closer.

He says there will still be the need for publishers in the digital world: "I used to have this discussion with [Hitchhiker's Guide to the Galaxy author] Douglas Adams. He created this thing called the digital village, an online publishing platform. Douglas's argument was, 'all of my friends will come along and publish on digital village and you the publishers will be disintermediated, you will be irrelevant'. Well, it hasn't happened. I am not aware of any successful direct to consumer publishing model that exists.

"The reason it doesn't work is that the publishers do actually perform quite a useful service: they edit the book, then they publicise it." In the physical world, they make sure it is stocked in bookshops, he adds.

Clubbable

Makinson, 55, perhaps feels more adaptable than some of his counterparts because he arrived at Penguin as an outsider. A clubbable character, he has taken an unusual career path, from a journalist on the Financial Times, to working for the Saatchis, setting up his own investment consultancy, running the Financial Times and then becoming Pearson finance director, despite having no training as an accountant.

But his passion for books is evident. Five years ago, he and his brother bought a bookshop in the small Norfolk town of Holt. For an out-of-the-way independent, the Holt Bookshop attracts a starry line-up of authors for events, including Stephen Fry, due to talk about his new autobiography, which, perhaps not surprisingly, is published by Penguin.

"We are all terribly sentimental about books," Makinson insists. "It is terribly important to me that we sell lots of wonderful books in my little independent in Norfolk, and when I talk about digital I do sometimes worry that it looks as though I am neglecting all this," he points to the books on the shelves behind him, "which I am not."

CV

Born: 1954, Derby.

Education: Graduated from Cambridge with honours in English and History.

Career: 1976-1979, journalist, Reuters; 1979-1986, journalist, Financial Times; 1986-1989, vice-chairman, Saatchi & Saatchi; 1989-1994, co-founder of capital markets advisory firm Makinson Cowell; 1994-1996, managing director, Financial Times; 1996-2002, finance director, Pearson; 2002-present, chairman and chief executive Penguin Books.

Other interests: chairman of the Institute for Public Policy Research, a director of the National Theatre and of the International Rescue Committee, a humanitarian organisation.

Family: Married with two daughters.


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The nostalgia narrative now aches to a different tune | John Freeman

Late-flowering writer of biographies and children's books

Verily Anderson, who has died aged 95, published more than 30 books – memoirs, biographies, children's stories and work ranging from personal reminiscences to Shakespeare scholarship and 10 Brownie books. She was a late starter: her breakthrough as a writer came in 1956, at the age of 41, when she published Spam Tomorrow, a deft and frequently uproarious account of her wartime experiences on the home front. Critics hailed it as a new kind of memoir, one of the first to explore the lives of women in wartime.

Before the success of Spam Tomorrow, she led a life that was colourful but frequently impecunious. Born in Edgbaston, Birmingham, the fourth of five children of the Rev Rosslyn Bruce and his wife Rachel (nee Gurney), Verily was always certain that she wanted to be a writer. As children, she and her brothers edited and wrote a nursery magazine which they called the News of the World. Verily's haphazard schooling ranged from a few years at Edgbaston high school for girls to being taught at home by her mother, to a brief and unsuccessful stint at the Royal College of Music in London. She said she worked at "100 different jobs" (including writing advertising copy, illustrating sweet papers and working as a chauffeur) before the outbreak of the second world war, when she enlisted with the First Aid Nursing Yeomanry, on the grounds that if there were going to be a war, it would be "less frightening to be in the middle of things".

During the war she met Donald Anderson, a writer who specialised in military history. They married in 1940 and had five children. With his encouragement, she made a precarious living as a freelance writer, while papering her lavatory walls with rejection slips received from publishers for her book projects. Her persistence was at last rewarded with the success of Spam Tomorrow – and a further half-decade on the bestseller lists. These years included a film adaptation of her 1958 memoir, Beware of Children, called No Kidding and starring Leslie Phillips and Geraldine McEwan (1960).

Donald died in 1956, and by the mid-60s Verily was again struggling financially. She was rescued by the actor Joyce Grenfell. They had struck up a friendship when Verily interviewed Grenfell for the BBC. Grenfell was so shocked at the conditions she found Verily living in that she bought her a home in Northrepps, a village in Norfolk, where she stayed for the rest of her life, writing dozens more books (including the critically acclaimed The Northrepps Grandchildren in 1968) and glorying in the role of matriarch to an ever-expanding family of children, grandchildren and great-grandchildren. When Verily married Paul Paget, architect and surveyor to the fabric of St Paul's Cathedral, in 1971, Grenfell was matron of honour.

In 2008 I conducted what turned out to be Verily's last interview. Letting myself in after some fruitless bell-ringing, I followed the sounds of a piano to her study door. "Oh my dear," she said, looking up at my knock. "There you are. Now – shall we have a gin, before we start?"

I had already heard all about Verily through her daughter, my friend the writer Janie Hampton, and so had a good idea what to expect. Janie's main piece of advice on hearing that we were going to meet was: "Whatever you do, don't let her pick you up from the station – she's half-blind." She also said: "Don't eat any of the cake she offers. She's always got some, and it's always about five weeks old."

Verily did have cake and it was past its best – but Verily definitely was not. She regaled me with anecdotes. I came away with the image of a woman with a twinkle in her eye, who after eight decades of writing was still full of energy and enthusing about her latest project. This – a memoir of the time she spent at Herstmonceux Castle, Sussex, in the 1930s and 40s – was completed the day before she died.

Verily is survived by her children, Marian, Rachel, Eddie, Janie and Alexandra, 16 grandchildren, 14 great-grandchildren – and Alfie, her beloved RNIB guide-dog.

• Verily Anderson, writer, born 12 January 1915, died 16 July 2010


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Tom Stoppard returns to BBC with Ford Madox Ford adaptation

The American literary genre of you can't go home again – that fertile ground farmed by Faulkner, Twain and Kerouac – has in the last half-century found a new voice abroad

At six foot, six inches tall, Thomas Wolfe had trouble entering most rooms. But he also had a problem with going back through them, especially if they led to the past. He had told too many truths – and too many lies – about where he came from in North Carolina.

In his posthumous 1940 novel, You Can't Go Home Again, he gave Americans a literary catchphrase for the pain so many of us who wind up far from where we grew up feel acutely.

After all, in the case of many Americans, if you leave the provinces only to return home, you are marked as a failure. At the very least, you run the risk of finding that flight has spoiled any fond memories you managed to smuggle out.

Think of the successful ad-man hero of John Updike's The Farm, who returns to his family's crumbling Pennsylvania farm for an emotionally fraught visit, or Quentin Compson of William Faulkner's Absalom, Absalom, shivering in his dorm room at Harvard, who begins his defence of the American south with the ringing endorsement, "I don't hate it ... I don't hate it."

This thread of conflicted nostalgia is strongest in America's most autobiographical novelists, especially the ones who had to leave to write but continuously dial back the past in their work: writers such as Jack Kerouac, who frantically travelled America, but wrote most of his later books about Lowell, while living with his mother in Queens and Florida.

Then there's Mark Twain, whose autobiography appears in the new issue of Granta, who rose out of Missouri and saw the world, but settled in Hartford, Connecticut in a white mansion that everyone around him could see looked exactly like a river steamboat.

But like so many things America feels it has invented, from democracy to baseball, the you-can-never-go-home again narrative is hardly unique to it. In fact, in the last half-century (and especially in the last 20 years, as diaspora writers from the Dominican Republic to Nigeria to India and Pakistan have emerged as some of our most vigorous storytellers), nostalgia – which is a combination of "returning home" and "ache" – has taken on a different texture.

In Granta's new issue, there's a story by the Sudanese writer Leila Aboulela, about a young man who has come to London from Khartoum to study mathematics. His mother, who worries he will never return, arranges for him to marry a devout Muslim wife – a move which backfires when she comes to London and reminds him of everything he left behind. Chimamanda Adichie, meanwhile, has a story about a Nigerian "big man" whose life is turned upside down when his ex-girlfriend announces she has come back to Lagos. As he speculates about the reasons for her return, Adichie's hero worries whether he has sacrificed something essential in his rise to the top.

In stories like these, not to mention the novels of Monica Ali or Kiran Desai or Uzma Aslam Khan, the export duty to elsewhere is high. The past isn't just the past – it's another country. And for reasons political and personal, there is no going back.


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