A  /  B  /  C  /  D  /  E  /   F  /  G  /  H  /  I  /  J  /   K  /  L  /  M  /  N  /  O   P  /  R  /  S  /  T  /  U  /  V  /  W  /  X  /  Y  /  Z

O Livro de Cesario Verde by Cesario Verde

C >> Cesario Verde >> O Livro de Cesario Verde

Pages:
1 | 2 | 3 | 4


Produced Joao Miguel Neves from images of the National Digital
Library project from the National Library of Portugal.




O LIVRO DE CESARIO VERDE


Prefacio


A JORGE VERDE

Aqui deponho em suas maos e debaixo dos seus labios o livro do seu
irmao. A minha "obra" terminou no dia em que elle saiu da nossa
doce amizade para a nossa terrivel amargura: morri, meu querido
Jorge--deixe-me chamar assim ao irmao do meu querido Cesario;--morri
para as alegrias do trabalho, para as esperancas dos enganos doces!
O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espirito e no coracao! Dos
restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicacao extremada:
peca-me o sacrificio; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de
nos, tenha este pensamento consolador:--A grande alma de meu irmao
soube impor-se a um coracao endurecido; e tenha este outro pensamento:
--Mas nao estava de todo endurecido o coracao que soube amal-a.

Adeus, meu querido Jorge!

S.P.

20 de julho de 1886.

Encontramo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi
em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem as
Lettras, como se as Lettras la estivessem--no Curso. Eu matriculara-me,
com a esperanca de habilitar-me um dia a conquista de uma cadeira
disponivel. Encontramo-nos e ficamos amigos--para a vida e para a
morte.

Para a vida e para a morte.

Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle
nao teve, desde aquelle dia--ha treze annos--maior amigo do que eu
fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, as 10 horas da
noite d'este formidavel dia glacial--20 de Julho de 1886, dia do
seu enterro,--sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas
palavras suas de ha poucos dias:--"E como se de o caso de tu seres
o mais dedicado dos meus amigos..." Tenho aqui essas palavras:
ellas constituem a justificacao dos meus solucos de ha poucas horas,
alli, no cemiterio visinho onde elle dorme--o Cesario!--a sua
primeira noite redimida...

Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraca, n'aquelle
anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de
Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forcas com as avancadas
do meu destino, a inquietacao invadiu o espirito e o coracao de
Cesario Verde, por modo que ja eu assoberbara com o meu desprezo
a desventura pertinaz e ainda elle nao vingara libertar-se do peso
de seus cuidados e afflicoes. Durante annos escreveu-me centenares
de paginas--commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do
seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coracao fraternal. Um
dia, trocamos estas palavras:--"Como tu tens tempo, meu amigo, para
soffrer tanto!"--"Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar
no soffrimento!".

E indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para
conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida,
imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia
espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor
da discussao--a toda a hora. Eu careco de preparar-me durante horas
para a simples comprehensao. As exigencias do meu caro polemista
irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o
sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e
largo sorriso de convencido; e entao--meu querido amigo! meu santo
poeta!--elle saudava com um enthusiasmo de creanca amoravel o que
elle chamava o meu triumpho! Nao hesitava em confessar-se vencido;
e congratulava-se commigo--porque eu o vencera inconscientemente.
A generosa alma chamava aquillo a minha superioridade!

Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem
em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades
amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de
primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos
seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas
do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica
do poeta: e entao dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam
foros de poesia aos aromas das flores. O mesmo sopro bondoso e
potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes
e as rosas! A bondade summa esta no poeta,--mais visivel, pelo menos,
do que em Deus.

Artista--e de alta plana! Eu pude vel-o cioso de seus direitos e
reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois
que um ligeiro esboco, precedendo mais detido trabalho, estou
elaborando sobre os tracos mais salientes d'aquella individualidade,
nao me dispensarei d'esta indicripcao:

Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: "O Doutor Sousa Martins
perguntou-me qual era a minha occupacao habitual. Eu respondi-lhe
naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se a
minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo,
o que eu te peco e que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe
des a perceber que eu nao sou o sr. Verde, empregado no commercio.
Eu nao posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus
escrupulos: sim?..."

E eu fui a beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario
Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me
--e apunhalou-me em pleno peito:--Que o poeta Cesario Verde estava
irremediavelmente perdido!

Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior,
quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado,
meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o
teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu
pallido agonisante illudido!

A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel
e originalissimo poeta merecem a Critica independente uma attencao
desvelada. Eu nao hesito em vincular o meu nome a promessa de um
tributo que a obra de Cesario Verde esta reclamando.

* * * * *

E todavia, nao pode o meu espirito evadir-se a idea consoladora de
que e um sonho isto que o entenebrece! Nao podes evadir-te, o meu
espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dor!

Foi as cinco da tarde--ainda agora. Caia o sol a prumo sobre a
estrada do Lumiar e nos vinhamos arrastando a nossa miseria,--nos
os vivos; o morto arrastava a sua indifferenca. Chegamos, com duas
horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanco. Veio o
ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia
terrivel: Entre algumas dezenas de homens nao houve uma phrase
indifferente--e em dado momento explosiram solucos n'um enternecimento
que ageitava a loira cabeca do cadaver la dentro do caixao--como
as maos da mae lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte
e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!

Eram sete horas da tarde, o minha alma triste! Eu fui-me a chorar
velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas.
Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos
que que me desse forca, que me desse forca nova,--pois que se
prolonga o captiveiro! E a sos, caminhando por entre os tumulos,
ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nos recebemos forca
nova em cada nova dor, para soffrermos de novo--do mesmo modo que
o alcatruz de uma nora se despeja para encher-se, para despejar-se
--sem saber porque...

20 de Agosto

* * * * *

A morada nova do Cesario e de pedra e tem uma porta de ferro, com
um respiradouro em cruz;--rua n. 6 do cemiterio dos Prazeres. A
porta esta um arbusto da familia dos cyprestes--um brinde ao meu
querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarcou ao
terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, ca da
minha raca--funebre e resistente. Esta verdejante e vigorosa a
pequenina arvore, e de longe e uma sentinella perdida da minha doce
amizade religiosa. De longe vou ja perguntando a nossa arvore:--Esta
bom o nosso amigo?... E ella inclina os pequeninos trocos, com a
gravidade do cypreste:--Bem; nao houve novidade em toda a noite...

E que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou e
todo um meu cuidado, como e toda a minha alegria o bem-estar
d'aquella hora em que nao ha risos. Nao fomos risonhos--o Cesario
e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois
da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira
consolacoes, alentos, esperancas, onde elle imaginara renascimentos,
horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que
se lhe nao consagrasse--ao meu querido morto. Em face d'aquelle
cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado
desprezo da vida. O meu santo esta alli,--esta resignado: e tudo.
Vos todos, que o amastes, sabei que elle esta resignado--o nosso
querido morto impassivel!

E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei
da porta de ferro a minha pobre cabeca esbrazeada e olhei para
dentro do jazigo, involuntariamente; e entao, como quer que eu
visse la a dentro do jazigo alguns caixoes arrumados, e como eu
acertasse em descobrir o caixao do Cesario, os solucos despedacaram-se
contra a minha garganta, n'uma affliccao immensa e cruel. E foi
entao que a voz rouca e enfraquecida do Cesario--lembram-se da voz
d'elle?--pronunciou distinctamente la a dentro do caixao:--"Se
natural, meu amigo; se natural!"

Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, o meu sagrado
horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei
n'uma angustia:--"Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!" Nao se
reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando,
um arrastar de folhagem resequida--e o morto na paz da Morte!

Vao ja decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos
da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que nao
havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e
torturando os olhos avidos, desde o berco a sepultura redemptora.
Cheguei aqui, a cidade maldita da minha primeira hora e trazia o
sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito
illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperancas: a
crueldade bestial que se debrucara sobre o meu primeiro dia nao
estava arrependida, nem fatigada: a perseguicao renasceu. E quando
eu, no singular desespero dos esmagados em sua crenca, pensei na
Morte como no abrigo antecipado--querido abrigo inevitavel!--a voz
de Cesario foi a voz evocadora para a continuacao do soffrimento
--do soffrimento amparado e protegido...

Protegido! A proteccao foi a maior da grande alma serena para a
pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas
lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignacao, consagrado as
minhas amarguras,--que para o Cesario nao foram mysteriosas; foi o
aperto de mao robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e
severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que
a minha angustia encontrou na sua.

Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte!
Vae-se na corrente, desfallecido, se nos nao troveja nos ouvidos a
voz reanimadora! Vae-se na corrente,--que o sei eu! Mas tu, depois
do grito salvador, tinhas um applauso vibrante la do fundo da tua
grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua
mao, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu nao
quizera ver, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro
da minha fraqueza! Tu bem o sabias,--forte, bom, generoso, nobre,
sempre bom--e todavia sempre justo!

A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,--abrigado pela sua
voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebelliao, com a
desconfianca dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados
offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias:
conseguintemente, com a suppressao do trabalho,--do pao,--com a
calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas a minha colera,
com todas as ciladas a minha fe... Ah, perdidos em paiz de Cafres!
Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os
dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisacao!

Hoje, o meu santo amigo esta alli em baixo, na sua morada nova,
esperando... Espera que eu va dizer-lhe dos horisontes novos abertos
a consciencia dos justos; espera que eu va dizer-lhe as victorias da
Justica absoluta--da Justica illuminada e serena;--espera que eu va
dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razao, da Sciencia, da
Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a
Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado,
a Vida possivel, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas
supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias
reconhecidas, a Bondade convertida em norma, os Direitos e os Deveres
supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fe, o seu horisonte,
o seu amor!

Esta alli em baixo, esperando... Eu, mensageiro triste, nao saberei
dizer-lhe o ascender dos espiritos, e so poderei levar-lhe no meu
abatimento a demonstracao da minha pouca fe, aggravada pela espantosa
amargura d'estes ultimos dias,--d'estas ultimas horas. As visoes
do poeta hao de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a
minha pobre mao tremente e desfallecida lhe depora no tumulo, e os
restos da minha fe hao-de misturar-se com o po accumulado a entrada
do seu tumulo pelo Nordeste--menos frio do que a minha alma succumbida!

* * * * *

Silva Pinto.





Os versos




I

CRISE ROMANESCA


DESLUMBRAMENTOS

Milady, e perigoso contemplal-a,
Quando passa aromatica e normal,
Com seu typo tao nobre e tao de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que n'isso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solemnidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me attrae como um thesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lucido perfil!

Ah! Como m'estontea e me fascina...
E e, na graca distincta do seu porte,
Como a Moda superflua e feminina,
E tao alta e serena como a Morte!...

Eu hontem encontrei-a, quando vinha,
Britannica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sosinha,
E com firmeza e musica no andar!

O seu olhar possue, n'um fogo ardente,
Um archanjo e um demonio a illuminal-o;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pello d'um regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas maos,
O modo diplomatico e orgulhoso
Que Anna d'Austria mostrava aos cortezaos.

E emfim prosiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramatica, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chamma
Seu ermo coracao, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, nao se afoite,
Que hao-de acabar os barabaros reaes;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vinganca agucam os punhaes.

E um dia, o flor do Luxo, nas estradas,
Sob o setim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, allucinadas,
E arrastando farrapos--as rainhas!



SEPTENTRIONAL

Talvez ja te esquecesses, o bonina,
Que viveste no campo so commigo,
Que te osculei a bocca purpurina,
E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste commigo da Babel,
Mulher como nao ha nem na Circassia,
Que bebemos, nos dois, do mesmo fel,
E regamos com prantos uma acacia.

Talvez ja te nao lembres com desgosto
D'aquellas brancas noites de mysterio,
Em que a lua sorria no teu rosto
E nas lages que estao no cemiterio.

Quando, a brisa outonica, como um manto,
Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
Se prendiam nas folhas d'um acantho,
Ou nos bicos agrestes dos silvados,

E eu ia desprendel-os, como um pagem
Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
E ouvia murmurar a doce aragem
Uns delirios d'amor, entristecidos;

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
Pousarem borbeletas doudejantes
Nas tuas formosissimas madeixas,
D'aquellas cor das messes lourejantes,

E no pomar, nos dois, hombro com hombro,
Caminhavamos sos e de maos dadas,
Beijando os nossos rostos sem assombro,
E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
N'um amor grande como um mar sem praias,
Ouviamos os meigos dithyrambos,
Que os rouxinoes teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casaes,
Eu comtigo, abracado como as heras,
Escondidos nas ondas dos trigaes,
Devolvia-te os beijos que me deras;

Quando, se havia lama no caminho,
Eu te levava ao collo sobre a greda,
E o teu corpo nevado como o arminho
Pesava menos que um papel de seda...

E foste sepultar-te, o seraphim,
No claustro das Fieis emparedadas,
Escondeste o teu rosto de marfim
No veu negro das freiras resignadas.

E eu passo, tao calado como a Morte,
N'esta velha cidade tao sombria,
Chorando afflictamente a minha sorte
E prelibando o calix da agonia.

E, tristissima Helena, com verdade,
Se podera na terra achar supplicios,
Eu tambem me faria gordo frade
E cobriria a carne de cilicios.



MERIDIONAL

Cabellos

O vagas de cabello esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o crystal d'um lago refulgente
E a rude escuridao d'um largo e negro mar;

Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
Deixae-me mergulhar as maos e os bracos nus
No barathro febril da vossa grande treva,
Que tem scintillacoes e meigos ceos de luz.

Deixae-me navegar, morosamente, a remos,
Quando elle estiver brando e livre de tufoes,
E, ao placido luar, o vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidoes.

Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos
Occultos n'esse abysmo ebanico e tao bom
Como um licor rhenano a fermentar nos copos,
Abysmo que s'espraia em rendas de Alencon!

E o magica mulher, o minha Inegualavel,
Que tens o immenso bem de ter cabellos taes,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel,
Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exhalas da cabeca erguida com fulgor,
Perfume que estontea um millionario avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possues balsamicos desejos,
E vaes na direccao constante do querer,
Mas ouco, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e elanguescer.

E a tua cabelleira, errante pelas costas,
Supponho que te serve, em noites de verao,
De flaccido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostracao.

E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhoes insanos
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

* * * * *

O mantos de veludo esplendido e sombrio,
Na vossa vastidao posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.



IRONIAS DO DESGOSTO

"Onde e que te nasceu"--dizia-me ella as vezes--
"O horror calado e triste as cousas sepulcraes?
"Porque e que nao possues a verve dos Francezes
"E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

"Porque e que tens no olhar, moroso e persistente,
"As sombras d'um jazigo e as fundas abstraccoes,
"E abrigas tanto fel no peito, que nao sente
"O abalo feminil das minhas expansoes?

"Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso e falso;
"Mas quando tentas rir parece entao, meu bem,
"Que estao edificando um negro cadafalso
"E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

"Eu vim--nao sabes tu?--para gosar em maio,
"No campo, a quietacao banhada de prazer!
"Nao ves, o descorado, as vestes com que saio,
"E os jubilos, que abril acaba de trazer?

"Nao ves como a campina e toda embalsamada
"E como nos alegra em cada nova flor?
"E entao porque e que tens na fronte consternada
"Um nao sei que tocante e enternecedor?

E eu so lhe respondia:--"Escuta-me. Conforme
"Tu vibras os crystaes da bocca musical,
"Vae-nos minando o tempo, o tempo--o cancro enorme
"Que te ha de corromper o corpo de vestal.

"E eu calmamente sei, na dor que me amortalha,
"Que a tua cabecinha ornada a Rabagas,
"A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha
"E em breve ao quente sol e ao gaz alvejara!

"E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
"Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,
"Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro
"O teu cabelo escuro as veneraveis cans!"



HUMILHACOES
(De todo o coracao--a Silva Pinto)

Esta aborrece quem e pobre. Eu, quasi Job,
Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os;
E espero-a nos saloes dos principaes theatros,
Todas as noites, ignorado e so.

La canca-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
E emquanto vao passando as cortezans e os brilhos,
Eu analyso as pecas no cartaz.

Na representacao d'um drama de Feuillet,
Eu aguradava, junto a porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra
Saltou soberba o estribo do coupe.

Como ella marcha! Lembra um magnetisador.
Rocavam no veludo as guarnicoes das rendas;
E, muito embora tu, burguez, me nao entendas,
Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Por nao podia abandonal-a em paz!
O minha pobre bolsa, amortalhou-se a idea
De vel-a aproximar, sentado na platea,
De tel a n'um binoculo mordaz!

Eu occultava o fraque usado nos botoes;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
--Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
E ouviam-se ca fora as ovacoes.

Que desvanecimento! A perola do Tom!
As outras ao pe d'ella imitam as bonecas;
Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
Nos grandes espetaculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu nao deixava de a abranger;
Vi-a subir, direita, a larga escadaria
E entrar no camarote. Antes estimaria
Que o chao se abrisse para me abater.

Sai; mas ao sair senti-me atropellar.
Era um municipal sobre um cavallo. A guarda
Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
Cresci com raiva contra o militar.

De subito, fanhosa, infecta, rota, ma,
Poz-se na minha frente uma velhinha suja,
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
--Meu bom senhor! Da-me um cigarro? Da?...



RESPONSO

I

N'um castello deserto e solitario,
Toda de preto, as horas silenciosas,
Envolve-se nas pregas d'um sudario
E chora como as grandes criminosas.

Podesse eu ser o lenco de Bruxellas
Em que ella esconde as lagrimas singellas.

II

E loura como as doces escocezas,
D'uma belleza ideal, quasi indecisa;
Circumda-se de luto e de tristezas
E excede a melancolica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados
E havia de escutar-lhe os seus peccados.

III

Alta noite, os planetas argentados
Deslisam um olhar macio e vago
Nos seus olhos de pranto marejados
E nas aguas mansissimas do lago

Podesse eu ser a lua, a lua terna,
E faria que a noite fosse eterna.

IV

E os abutres e os corvos fazem giros
De roda das ameias e dos pegos,
E nas salas resoam uns suspiros
Dolentes como as supplicas dos cegos.

Fosse eu aquellas aves de pilhagem
E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

V

E ella vaga nas praias rumorosas,
Triste como as rainhas desthronadas,
A contemplar as gondolas airosas,
Que passam, a giorno illuminadas.

Podesse eu ser o rude gondoleiro
E alli e que fizera o meu cruzeiro.

VI

De dia, entre os veludos e entre as sedas,
Murmurando palavras afflictivas,
Vagueia nas umbrosas alamedas
E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquellas arvores frondosas
E prendera-lhe as roupas vaporosas.

VII

Ou domina, a rezar, no pavimento
Da capella onde outr'ora se ouviu missa,
A musica dulcissima do vento
E o sussuro do mar, que s'espreguica.

Podesse eu ser o mar e os meus desejos
Eram ir borrifar-lhe os pes, com beijos.

VIII

E as horas do crepusculo saudosas,
Nos parques com tapetes cultivados,
Quando ella passa curvam-se amorosas
As estatuas dos seus antepassados.

Fosse eu tambem granito e a minha vida
Era vel-a a chorar arrependida.

IX

No palacio isolado como um monge,
Erram as velhas almas dos precitos,
E nas noites de inverno ouvem-se ao longe
Os lamentos dos naufragos afflictos.

Podesse eu ter tambem uma procella
E as lentas agonias ao pe d'ella!

X

E as lages, no silencio dos mosteiros,
Ella conta o seu drama negregado,
E o vasto carmesim dos resposteiros
Ondula como um mar ensanguentado.

Fossem aquellas mil tapecarias
Nossas mortalhas quentes e sombrias.

XI

E assim passa, chorando, as noites bellas,
Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
E a reflectir nas gothicas janellas
As estrellas dos ceus desconhecidos.

Podesse eu ir sonhar tambem comtigo
E ter as mesmas pedras no jazigo!

XII

Mergulha-se em angustias lacrimosas
Nos ermos d'um castello abandonado,
E as proximas florestas tenebrosas
Repercutem um choro amargurado.

Unissemos, nos dois, as nossas covas,
O doce castella das minhas trovas!





II

NATURAES




CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrivel! Ja fumei tres massos de cigarros
Consecutivamente.

Doe-me a cabeca. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravacao nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os acidos, os gumes
E os angulos agudos.

Sentei-me a secretaria. Alli defronte mora
Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmoes doentes;
Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes
E engomma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tao livida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta a botica!
Mal ganha para sopas...

Pages:
1 | 2 | 3 | 4

Elliott Kastner obituary

John Makinson says that if people want to read using new technology, that's what publishers must give them

Penguin this week celebrates its 75th year and is marking the anniversary by repackaging a series of seminal books from the 1960s to the 1980s. Although the company might afford itself a brief look backwards, it feels as though there is little room for nostalgia in book publishing now, as the industry turns its face firmly – and apprehensively – to the future.

Amazon last week announced sales of ebooks on its US site had outnumbered hardbacks for the first time, stunning casual observers, even if it had not been entirely unexpected in the trade.

The launch of the iPad has added a sense of urgency. Where music went first, books are set to follow, although Penguin and other publishers would hope without the same devastating effects. Amazon this week launched a cheaper, more lightweight version of its Kindle ebook reader and a digital store on its UK site, while others, including Google, are muscling in. Digital book sales are still less than 1% of Penguin, but the direction of the market is clear. In the US, digital books already account for 6% of consumer sales.

Penguin chief executive John Makinson says he is a convert. The day after we meet he is on his way to India, as part of David Cameron's delegation, and had loaded titles on to his iPad, including a manuscript by John le Carré and some Portuguese classics (in English) ahead of Penguin launching a range in Brazil. He is also reading Lord Mandelson's diary. It simply makes sense, he says, instead of carting an armful of books in your carry-on luggage.

Innovation

"It does redefine what we do as publishers and I feel, compared with most of my counterparts, more optimistic about what this means for us," he says. "Of course there are issues around copyright protection and there are worries around pricing and around piracy, royalty rates and so on, but there is also this huge opportunity to do more as publishers."

Publishing, he says, must embrace innovation: "I am keen on the idea that every book that we put on to an iPad has an author interview, a video interview, at the beginning. I have no idea whether this is a good idea or not. There has to be a culture of experimentation, which doesn't come naturally to book publishers. We publish a lot of historians, for example. They love the idea of using documentary footage to illustrate whatever it is they're writing about."

The very definition of a book is up for grabs he says, although the company has just published a version of Ken Follett's The Pillars of the Earth for the iPad in the US that might provide clues – and horrify traditionalists. It includes scenes from a TV adaptation embedded in the text, as well as extras including the show's music soundtrack and Follett's video diary during the making of the series.

For now, Makinson says, digital books are expanding the market; hardback sales in the US are up this year, despite the march of ebooks. Piracy is not yet a significant issue and lessons have been learned from the music business.

"You have to give the consumer what the consumer wants – you can't tell the consumer to go away. So we didn't participate in this experiment where a number of publishers deferred publication of the ebook until a certain number of months after the hardcover publication. I thought that was a very bad idea. If the consumer wants to buy a book in an electronic format now, you should let the consumer have it."

He has added confidence, because with tablets such as the iPad, consumers are used to paying a subscription to the wireless operator and for "apps", creating a more benign environment than the wild west of the PC, where users are used to getting everything for free.

Penguin's profits more than doubled to £44m in the first half of the year. The company gained market share, but one reason for the dramatic improvement was the outsourcing of some design and production to India last year; the company now has around 100 designers in Delhi making books for Dorling Kindersley, belying the idea that Britain can at least live off its creative industries. Makinson defends the decision and says DK is now back in profit, which means it can reinvest in Britain: "We can't pretend we can do everything here. In order to be internationally competitive, some work needs to be done in other places."

About 8% of the publisher's sales are from its classics, including Jane Austen and Charles Dickens, and revenues are still growing, despite much of the copyright being in the public domain. It is launching the range in Mandarin, Korean and Portuguese. But it is not all highbrow. What would Penguin's founder, Sir Allen Lane, whose aim was to publish quality paperbacks for the masses, have made of Penguin putting out books "by" Peter Andre or Ant & Dec?

"Allen Lane's view was that we should publish good writing of all kinds for all audiences at affordable prices," Makinson says. "I'm not saying he would necessarily have approved every single publishing decision we take, but would he have approved of Penguin being a very democratic publishing company, publishing for lots of different tastes? I think he would definitely have approved."

Makinson has long been mentioned as a successor to Dame Marjorie Scardino, who runs Pearson, Penguin's parent company. Her departure has been a perennial question, though she has defied the investment community's chattering classes by staying in her post for well over a decade. She has also confounded expectations by keeping Penguin and the Financial Times in a group dominated by educational publishing. Makinson says it now makes more sense than ever for Penguin to remain part of the group, as the digital era draws each division closer.

He says there will still be the need for publishers in the digital world: "I used to have this discussion with [Hitchhiker's Guide to the Galaxy author] Douglas Adams. He created this thing called the digital village, an online publishing platform. Douglas's argument was, 'all of my friends will come along and publish on digital village and you the publishers will be disintermediated, you will be irrelevant'. Well, it hasn't happened. I am not aware of any successful direct to consumer publishing model that exists.

"The reason it doesn't work is that the publishers do actually perform quite a useful service: they edit the book, then they publicise it." In the physical world, they make sure it is stocked in bookshops, he adds.

Clubbable

Makinson, 55, perhaps feels more adaptable than some of his counterparts because he arrived at Penguin as an outsider. A clubbable character, he has taken an unusual career path, from a journalist on the Financial Times, to working for the Saatchis, setting up his own investment consultancy, running the Financial Times and then becoming Pearson finance director, despite having no training as an accountant.

But his passion for books is evident. Five years ago, he and his brother bought a bookshop in the small Norfolk town of Holt. For an out-of-the-way independent, the Holt Bookshop attracts a starry line-up of authors for events, including Stephen Fry, due to talk about his new autobiography, which, perhaps not surprisingly, is published by Penguin.

"We are all terribly sentimental about books," Makinson insists. "It is terribly important to me that we sell lots of wonderful books in my little independent in Norfolk, and when I talk about digital I do sometimes worry that it looks as though I am neglecting all this," he points to the books on the shelves behind him, "which I am not."

CV

Born: 1954, Derby.

Education: Graduated from Cambridge with honours in English and History.

Career: 1976-1979, journalist, Reuters; 1979-1986, journalist, Financial Times; 1986-1989, vice-chairman, Saatchi & Saatchi; 1989-1994, co-founder of capital markets advisory firm Makinson Cowell; 1994-1996, managing director, Financial Times; 1996-2002, finance director, Pearson; 2002-present, chairman and chief executive Penguin Books.

Other interests: chairman of the Institute for Public Policy Research, a director of the National Theatre and of the International Rescue Committee, a humanitarian organisation.

Family: Married with two daughters.


guardian.co.uk © Guardian News & Media Limited 2010 | Use of this content is subject to our Terms & Conditions | More Feeds

The nostalgia narrative now aches to a different tune | John Freeman

Late-flowering writer of biographies and children's books

Verily Anderson, who has died aged 95, published more than 30 books – memoirs, biographies, children's stories and work ranging from personal reminiscences to Shakespeare scholarship and 10 Brownie books. She was a late starter: her breakthrough as a writer came in 1956, at the age of 41, when she published Spam Tomorrow, a deft and frequently uproarious account of her wartime experiences on the home front. Critics hailed it as a new kind of memoir, one of the first to explore the lives of women in wartime.

Before the success of Spam Tomorrow, she led a life that was colourful but frequently impecunious. Born in Edgbaston, Birmingham, the fourth of five children of the Rev Rosslyn Bruce and his wife Rachel (nee Gurney), Verily was always certain that she wanted to be a writer. As children, she and her brothers edited and wrote a nursery magazine which they called the News of the World. Verily's haphazard schooling ranged from a few years at Edgbaston high school for girls to being taught at home by her mother, to a brief and unsuccessful stint at the Royal College of Music in London. She said she worked at "100 different jobs" (including writing advertising copy, illustrating sweet papers and working as a chauffeur) before the outbreak of the second world war, when she enlisted with the First Aid Nursing Yeomanry, on the grounds that if there were going to be a war, it would be "less frightening to be in the middle of things".

During the war she met Donald Anderson, a writer who specialised in military history. They married in 1940 and had five children. With his encouragement, she made a precarious living as a freelance writer, while papering her lavatory walls with rejection slips received from publishers for her book projects. Her persistence was at last rewarded with the success of Spam Tomorrow – and a further half-decade on the bestseller lists. These years included a film adaptation of her 1958 memoir, Beware of Children, called No Kidding and starring Leslie Phillips and Geraldine McEwan (1960).

Donald died in 1956, and by the mid-60s Verily was again struggling financially. She was rescued by the actor Joyce Grenfell. They had struck up a friendship when Verily interviewed Grenfell for the BBC. Grenfell was so shocked at the conditions she found Verily living in that she bought her a home in Northrepps, a village in Norfolk, where she stayed for the rest of her life, writing dozens more books (including the critically acclaimed The Northrepps Grandchildren in 1968) and glorying in the role of matriarch to an ever-expanding family of children, grandchildren and great-grandchildren. When Verily married Paul Paget, architect and surveyor to the fabric of St Paul's Cathedral, in 1971, Grenfell was matron of honour.

In 2008 I conducted what turned out to be Verily's last interview. Letting myself in after some fruitless bell-ringing, I followed the sounds of a piano to her study door. "Oh my dear," she said, looking up at my knock. "There you are. Now – shall we have a gin, before we start?"

I had already heard all about Verily through her daughter, my friend the writer Janie Hampton, and so had a good idea what to expect. Janie's main piece of advice on hearing that we were going to meet was: "Whatever you do, don't let her pick you up from the station – she's half-blind." She also said: "Don't eat any of the cake she offers. She's always got some, and it's always about five weeks old."

Verily did have cake and it was past its best – but Verily definitely was not. She regaled me with anecdotes. I came away with the image of a woman with a twinkle in her eye, who after eight decades of writing was still full of energy and enthusing about her latest project. This – a memoir of the time she spent at Herstmonceux Castle, Sussex, in the 1930s and 40s – was completed the day before she died.

Verily is survived by her children, Marian, Rachel, Eddie, Janie and Alexandra, 16 grandchildren, 14 great-grandchildren – and Alfie, her beloved RNIB guide-dog.

• Verily Anderson, writer, born 12 January 1915, died 16 July 2010


guardian.co.uk © Guardian News & Media Limited 2010 | Use of this content is subject to our Terms & Conditions | More Feeds

Tom Stoppard returns to BBC with Ford Madox Ford adaptation

The American literary genre of you can't go home again – that fertile ground farmed by Faulkner, Twain and Kerouac – has in the last half-century found a new voice abroad

At six foot, six inches tall, Thomas Wolfe had trouble entering most rooms. But he also had a problem with going back through them, especially if they led to the past. He had told too many truths – and too many lies – about where he came from in North Carolina.

In his posthumous 1940 novel, You Can't Go Home Again, he gave Americans a literary catchphrase for the pain so many of us who wind up far from where we grew up feel acutely.

After all, in the case of many Americans, if you leave the provinces only to return home, you are marked as a failure. At the very least, you run the risk of finding that flight has spoiled any fond memories you managed to smuggle out.

Think of the successful ad-man hero of John Updike's The Farm, who returns to his family's crumbling Pennsylvania farm for an emotionally fraught visit, or Quentin Compson of William Faulkner's Absalom, Absalom, shivering in his dorm room at Harvard, who begins his defence of the American south with the ringing endorsement, "I don't hate it ... I don't hate it."

This thread of conflicted nostalgia is strongest in America's most autobiographical novelists, especially the ones who had to leave to write but continuously dial back the past in their work: writers such as Jack Kerouac, who frantically travelled America, but wrote most of his later books about Lowell, while living with his mother in Queens and Florida.

Then there's Mark Twain, whose autobiography appears in the new issue of Granta, who rose out of Missouri and saw the world, but settled in Hartford, Connecticut in a white mansion that everyone around him could see looked exactly like a river steamboat.

But like so many things America feels it has invented, from democracy to baseball, the you-can-never-go-home again narrative is hardly unique to it. In fact, in the last half-century (and especially in the last 20 years, as diaspora writers from the Dominican Republic to Nigeria to India and Pakistan have emerged as some of our most vigorous storytellers), nostalgia – which is a combination of "returning home" and "ache" – has taken on a different texture.

In Granta's new issue, there's a story by the Sudanese writer Leila Aboulela, about a young man who has come to London from Khartoum to study mathematics. His mother, who worries he will never return, arranges for him to marry a devout Muslim wife – a move which backfires when she comes to London and reminds him of everything he left behind. Chimamanda Adichie, meanwhile, has a story about a Nigerian "big man" whose life is turned upside down when his ex-girlfriend announces she has come back to Lagos. As he speculates about the reasons for her return, Adichie's hero worries whether he has sacrificed something essential in his rise to the top.

In stories like these, not to mention the novels of Monica Ali or Kiran Desai or Uzma Aslam Khan, the export duty to elsewhere is high. The past isn't just the past – it's another country. And for reasons political and personal, there is no going back.


guardian.co.uk © Guardian News & Media Limited 2010 | Use of this content is subject to our Terms & Conditions | More Feeds

Copyright (c) 2007. booksboost.com. All rights reserved.