O Livro de Cesario Verde by Cesario Verde
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Cesario Verde >> O Livro de Cesario Verde
O obstaculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias,
Um folhetim de versos.
Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais d'uma redaccao, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.
A critica segundo o methodo de Taine
Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa.
Muitissimos papeis ineditos. A imprensa
Vale um desdem solemne.
Com raras excepcoes merece-me o epigramma.
Deu meia-noite; e em paz pela calcada abaixo,
Um sol-e-do. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.
Eu nunca dediquei poemas as fortunas,
Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas,
Independente! So por isso os jornalistas
Me negam as columnas.
Receiam que o assignante ingenuo os abandone,
Se forem publicar taes cousas, taes auctores.
Arte? Nao lhes convem, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.
Um prosador qualquer desfructa fama honrosa,
Obtem dinheiro, arranja a sua "coterie";
E a mim, nao ha questao que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.
A adulacao repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos litteratos,
E apuro-me em lancar originaes e exactos,
Os meus alexandrinos...
E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!
Ignora que a asphyxia a combustao das brazas,
Nao foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!
Mantem-se a cha e pao! Antes de entrar na cova.
Esvae-se; e todavia, a tarde, fracamente,
Oico-a cantarolar uma cancao plangente
D'uma opereta nova!
Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?
Nas lettras eu conheco um campo de manobras;
Emprega-se a reclame, a intriga, o annuncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...
E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?
A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. E feia...
Que mundo! Coitadinha!
A DEBIL
Eu, que sou feio, solido, leal,
A ti, que es bella, fragil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
N'uma existencia honesta, de crystal.
Sentado a mesa d'um cafe devasso,
Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,
N'esta Babel tao velha e corruptora,
Tive tencoes de offerecer-te o braco.
E, quando soccorreste um miseravel,
Eu, que bebia calices d'absintho,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudavel.
"Ella ahi vem!" disse eu para os demais;
E puz-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinaes.
Via-te pela porta envidracada;
E invejava,--talvez que o nao suspeites!--
Esse vestido simples, sem enfeites,
N'essa cintura tenra, immaculada.
Ia passando, a quatro, o patriarcha.
Triste eu sahi. Doia-me a cabeca;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exequias d'um monarcha.
Adoravel! Tu muito natural
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, n'um largo arborisado,
Uma estatua de rei n'um pedestal.
Sorriam nos seus trens os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mae, que te ama tanto,
Que nao te morrera sem te casares!
Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma familia, um ninho de socego,
Desejava beijar sobre o teu peito.
Com elegancia e sem ostentacao,
Atravessavas branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E d'altos funccionarios da nacao.
"Mas se a atropella o povo turbolento!
Se fosse, por acaso, alli pisada!"
De repente, paraste embaracada
Ao pe d'um numeroso ajuntamento.
E eu, que urdia estes faceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
uma pombinha timida e quieta
N'um bando ameacador de corvos pretos.
E foi, entao, que eu homem varonil,
Quiz dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que es tenue, docil, reconhecida,
Eu, que sou habil, pratico, viril.
N'UM BAIRRO MODERNO
A Manuel Ribeiro
Dez horas da manha; os transparentes
Matizam uma casa apalacada;
Pelos jardins estancam-se os nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamisada.
Rez-de-chaussee repousam socegados,
Abriram-se, n'alguns, as persianas,
E d'um ou d'outro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papeis pintados,
Reluzem, n'um almoco, as porcelanas.
Como e saudavel ter o seu conchego,
E a sua vida facil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quasi sempre chego
Com as tonturas d'uma apoplexia.
E rota, pequenina, aramafada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmoreo d'uma escada,
Como um retalho de horta agglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga.
E eu, apesar do sol, examinei-a:
Poz-se de pe: resoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodao azul da meia,
Se ella se curva, esguedelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.
Do patamar responde-lhe um criado:
"Se te convem, despacha; nao converses.
Eu nao dou mais." E muito descancado,
Atira um cobre livido, oxidado,
Que vem bater nas faces d' uns alperces.
Subitamente,--que visao de artista!--
Se eu transformasse os simples vegetaes,
A luz do sol, o intenso colorista,
N'um ser humano que se mova e exista
Cheio de bellas proporcoes carnaes?!
Boiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz as costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E as portas, uma ou outra campainha
Toca, frenetica, de vez em quando.
E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo organico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeca n'uma melancia,
E n'uns repolhos seios injectados.
As azeitonas, que nos dao o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
Sao trancas d'um cabello que se ageite;
E os nabos--ossos nus, da cor do leite,
E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos.
Ha collos, hombros, boccas, um semblante
Nas posicoes de certos fructos. E entre
As hortalicas, tumido, fragrante,
Como d'alguem que tudo aquilo jante,
Surge um melao, que me lembrou um ventre.
E, como um feto, emfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons coracoes pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.
O sol dourava o ceo. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortela que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
"Nao passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!..."
Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
E, pelas duas azas a quebrar,
Nos levantamos todo aquelle peso
Que ao chao de pedra resistia preso,
Com um enorme esforco muscular.
"Muito obrigada! Deus lhe de saude!"
E recebi, naquella despedida,
As forcas, a alegria, a plenitude,
Que brotam d'um excesso de virtude
Ou d'uma digestao desconhecida.
E em quanto sigo para o lado opposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas macas do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.
Um pequerrucho rega a trepadeira
D'uma janella azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrellas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas e incensal-o.
Chegam do gigo emanacoes sadias,
Oico um canario--que infantil chilrada!--
Lidam menages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja distillada.
E pittoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
D'uma desgraca alegre que me incita,
Ella apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.
E como as grossas pernas d'um gigante,
Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rustica, abundante,
Duas frugaes aboboras carneiras.
CRYSTALISACOES
A Bettencourt Rodrigues
Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,
Vibra uma immensa claridade crua.
De cocaras, em linha os calceteiros,
Com lentidao, terrosos e grosseiros,
Calcam de lado a lado a longa rua.
Como as elevacoes seccaram do relento,
E o descoberto sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as pocas d'agua, como em chao vidrento,
Reflectem a molhada casaria.
Em pe e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manha bonita,
Uns barracoes de gente pobresita.
E uns quintalorios velhos com parreiras.
Nao se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra--que uniao sonora!--
Retinem alto pelo espaco fora,
Com choques rijos, asperos, cantantes.
Bom tempo. E os rapagoes, morosos, duros, bacos,
Cuja columna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhacos.
Pesam enormemente os grossos macos,
Com que outros batem a calcada feita.
A sua barba agreste! A la dos seus barretes!
Que espessos forros! N'uma das regueiras
Acamam-se as japonas, os colletes:
E elles descalcam com os picaretes,
Que ferem lume sobre pederneiras.
E n'esse rude mez, que nao consente as flores,
Fundeam, como a esquadra em fria paz,
As arvores despidas. Sobrias cores!
Mastros, enxarcias, vergas! Valladores
Atiram terra com as largas pas.
Eu julgo-me no Norte, ao frio--o grande agente!--
Carros de mao, que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Ve se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, aguas, multidoes, telhados!
Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;
Em arco, sem as nuvens fluctuantes,
O ceu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto, que eu diria
Ter ante mim lagoas de brilhantes!
E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
Eu tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!
Pede-me o corpo inteiro esforcos na friagem
De tao lavada e egual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.
Mal encarado e negro, um para emquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas d'aco;
E um gordo, o mestre, com um ar de ralaco
E manso, tira o nivel das valletas.
Homens de carga! Assim as bestas vao curvadas!
Que vida tao custosa! Que diabo!
E os cavadores pousam as enxadas,
E cospem nas callosas maos gretadas,
Para que nao lhes escorregue o cabo.
Povo! No panno cru rasgado das camizas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ella soffres, bebes, agonisas:
Listroes de vinho lancam-lhe divisas,
E os suspensorios tracam-lhe uma cruz!
D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguca;
E ar matinal de quem sahiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada n'um casaco a russa.
D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento
E a quem, a noite na plateia, attraio
Os olhos lizos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.
E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajoes. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezirias, dos montados;
Os das planicies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!
Mas fina de feicoes, o queixo hostil, distincto,
Furtiva a tiritar em suas pelles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
N'este dezembro energico, succinto,
E n'estes sitios suburbanos, reles!
Como animaes communs, que uma picada esquente,
Elles, bovinos, masculos, ossudos,
Encaram-n'a sanguinea, brutamente:
E ella vacilla, hesita impaciente
Sobre as botinhas de tacoes agudos.
Porem, desempenhando o seu papel na peca,
Sem que inda o publico a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamacaes, depressa,
Com seus pesinhos rapidos, de cabra!
NOITES GELIDAS
MERINA
Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a allema que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gaz da noites de ballada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas las forrada,
Recorda-me a elegancia, a graca, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.
SARDENTA
Tu, n'esse corpo completo,
O lactea virgem doirada,
Tens o lymphatico aspecto
D'uma camelia melada.
FLORES VELHAS
Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,
Aonde tanta vez a luz nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um voo.
Em tudo scintillava o limpido poema
Com osculos rimado as luzes dos planetas;
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.
Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrugaes;
E as viracoes, o rio, os astros, a pasizagem,
Traziam-me a memoria idyllios immortaes.
Diziam-me que tu, no florido passado,
Detinhas sobre mim, ao pe d'aquellas rosas,
Aquelle teu olhar moroso e delicado,
Que fala de languor e d'emocoes mimosas;
E, o pallida Clarisse, o alma ardente e pura,
Que nao me desgostou nem uma vez sequer,
Eu nao sabia haurir do calix da ventura
O nectar que nos vem dos mimos da mulher.
Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores,
Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
As falas quasi irmas do vento com as flores
E a molle exhalacao das varzeas rescendentes.
Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas
No ninho de affeicoes creado para ti,
Por entre o riso claro, e as vozes das creancas,
E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.
Lembrei-me muito, muito, o symbolo das santas,
Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas
Bebemos o elixir das tardes perfumadas.
E nosso bom romance escripto n'um desterro,
Com beijos sem ruido em noites sem luar,
Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.
Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu nao beijarei, as horas somnolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...
Eu, por nao ter sabido amar os movimentos
Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepcoes e os grandes desalentos
E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.
E tudo emfim passou, passou como uma penna,
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,
E aquella doce vida, aquella vida amena,
Ah! nunca mais vira, meu lyrio, nunca mais!
O minha boa amiga, o minha meiga amante!
Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
A areia em que rangia a saia rocagante,
Que foi na minha vida o ceo aurirosado,
Eu tinha tao impresso o cunho da saudade,
Que as ondas que formei das suas illusoes
Fizeram-me enganar na minha soledade
E as azas ir abrindo as minhas impressoes.
Soltei com devocao lembrancas inda escravas,
No espaco construi phantasticos castellos,
No tanque debrucei-me em que te debrucavas,
E onde o luar parava os raios amarellos.
Cuidei ate sentir, mais doce que uma prece,
Suster a minha fe, n'um veo consolador,
O teu divino olhar que as pedras amollece,
E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.
Os teus pequenos pes, aquelles pes suaves,
Julguei-os esconder por entre as minhas maos,
E imaginei ouvir ao conversar das aves
As celicas cancoes dos anjos aos teus irmaos.
NOITE FECHADA
(L.)
Lembras-te tu do sabbado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso gaz amarellado
E as caricias leitosas do luar?
Bem me lembro das altas ruasinhas,
Que ambos nos percorremos de maos dadas:
As janellas palravam as visinhas;
Tinham lividas luzes as fachadas.
Nao me esqueco das cousas que disseste,
Ante um pesado templo com recortes;
E os cemiterios ricos, e o cypreste
Que vive de gorduras e de mortes!
Nos sairamos proximo ao sol-posto,
Mas seguiamos cheios de demoras;
Nao me esqueceu ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas.
Tenho ainda gravado no sentido,
Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver.
Como uma mitra a cupula da egreja
Cobria parte do ventoso largo;
E essa bocca vicosa de cereja,
Torcia risos com sabor amargo.
A lua dava tremulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com arvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado!
E para te seguir entrei comtigo
N'um pateo velho que era d'um canteiro,
E onde, talvez, se faca inda o jazigo
Em que eu irei apodrecer primeiro!
Eu sinto ainda a flor da tua pelle,
Tua luva, teu veu, o que tu es!
Nao sei que tentacao e que te impelle
Os pequeninos e cancados pes.
Sei que em tudo attentavas, tudo vias!
Eu por mim tinha pena dos marcanos,
Como ratos, nas gordas mercearias,
Encafunados por immensos annos!
Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,
Que apparecem ao fundo d'umas minas,
E a crua luz os pallidos barbeiros
Com oleos e maneiras femininas!
Fins de semana! Que miseria em bando!
O povo folga, estupido e grisalho!
E os artistas d'officio iam passando,
Com as ferias, ralados do trabalho.
O quadro anterior, d'um que a candea,
Ensina a filha a ler, metteu-me do!
Gosto mais do plebeu que cambalea,
Do bebado feliz que falla so!
De subito, na volta de uma esquina,
Sob um bico de gaz que abria em leque,
Vimos um militar, de barretina
E galoes marciaes de pechisbeque,
E em quanto elle fallava ao seu namoro,
Que morava n'um predio de azulejo,
Nos nossos labios retinio sonoro
Um vigoroso e formidavel beijo!
E assim ao meu capricho abandonada,
Erramos por travessas, por viellas,
E passamos por pe d'uma tapada
E um palacio real com sentinellas.
E eu que busco a moderna e fina arte,
Sobre a umbrosa calcada sepulchral,
Tive a rude intencao de violentar-te
Imbecilmente como um animal!
Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,
Como longiquos bosques muito ermos,
Tu querias no meio da folhagem
Um ninho enorme para nos vivermos.
E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
O grande pomba tepida que arrulha,
Vinham batendo o macadam fremente,
As patadas sonoras da patrulha,
E atravez a immortal cidadesinha,
Nos fomos ter as portas, as barreiras,
Em que uma negra multidao se apinha
De teceloes, de fumos, de caldeiras.
Mas a noite dormente e esbranquicada
Era uma esteira lucida d'amor;
O jovial senhora perfumada,
O terrivel creanca! Que esplendor!
E ali comecaria o meu desterro!...
Lodoso o rio, e glacial, corria;
Sentamo-nos, os dois, n'um novo aterro
Na muralha dos caes de cantaria.
Nunca mais amarei, ja que nao me amas,
E e preciso, decerto, que me deixes!
Toda a mare luzida como escamas,
Como alguidar de prateados peixes.
E como e necessario que eu me afoite
A perder-me de ti por quem existo,
Eu fui passar ao campo aquella noite
E andei leguas a pe, pensando n'isto.
E tu que nao seras somente minha,
As caricias leitosas do luar,
Recolheste-te, pallida e sosinha
A gaiola do teu terceiro andar!
MANHANS BRUMOSAS
Aquella, cujo amor me causa alguma pena,
Poe o chapeo ao lado, abre o cabello a banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexoes inglezas,
--Na Nevoa azul, a caca, as pescas, os rebanhos!--
Sigo-lhe os altos pes por estas asperezas;
E o meu desejo nada em epoca de banhos,
E, ave de arribacao, elle enche de surprezas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
As irlandezas teem soberbos desmazelos!
Ella descobre assim, com lentidoes ufanas,
Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
E como aquellas sao maritimas, serranas,
Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
Parece um "rural boy"! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botoes a tiracollo e applicacoes vermelhas;
E a roda, n'um paiz de prados e barrancos,
Se as minhas maguas vao, mansissimas ovelhas,
Correm os seus desdens, como vitellos brancos.
E aquella, cujo amor me causa alguma pena,
Poe o chapeo ao lado, abre o cabello a banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, catholica, morena,
Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.
FRIGIDA
I
Balzac e meu rival, minha senhora ingleza!
Eu quero-a porque odeio as carnacoes redondas!
Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
E eu turbo-me ao deter seus olhos cor das ondas.
II
Admiro-a. A sua longa e placida estatura
Expoe a magestade austera dos invernos.
Nao cora no seu todo a timida candura;
Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.
III
Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,
N'uma das maos franzindo um lenco de cambraia!...
Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,
Quando arregaca e ondula a preguicosa saia!
IV
Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;
Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,
E, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!
V
Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,
O gelida mulher bizarramente estranha,
E tremulo depor os labios no seu pulso,
Entre a macia luva e o punho de bretanha!...
VI
Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
Ao encarar comsigo a phantasia pasma;
Pausadamente lembra o silvo das giboias
E a marcha demorada e muda d'um phantasma.
VII
Metallica visao que Charles Baudelaire
Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,
Permitta que eu lhe adule a distinccao que fere,
As curvas de magreza e o lustre dos adornos!
VIII
Deslise como um astro, uma astro que declina;
Tao descancada e firme e que me desvaria,
E tem a lentidao d'uma corveta fina
Que nobremente va n'um mar de calmaria.
IX
Nao me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
No bosque das ficcoes, o grande flor do Norte!
E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe
O socegado espectro angelico da Morte!
X
O seu vagar occulta uma elasticidade
Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
E a sua glacial impassibilidade
Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.
XI
Porem, nao arderei aos seus contactos frios,
E nao me enroscara nos serpentinos bracos:
Receio supportar febroes e calefrios;
Adoro no seu corpo os movimentos lassos.
XII
E se uma vez me abrisse o collo transparente,
E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,
Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,
Nas trevas, a cortar pedacos de cortica!
DE VERAO
A Eduardo Coelho
I
No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:
A claridade, a robustez, a accao.
Esta manha, sai com minha prima,
Em que eu noto a mais sincera estima
E a mais completa e seria educacao.
II
Creanca encantadora! Eu mal esboco o quadro
Da lyrica excursao, d'intimidade
Nao pinto a velha ermida com seu adro;
Sei so desenho de compasso e esquadro,
Respiro industria, paz, salubridade.
III
Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
E tu dizias: "Fumas? E as fagulhas?
Apaga o teu cachimbo junto as eiras;
Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
Quando me alegra a calma das debulhas!"
IV
E perguntavas sobre os ultimos inventos
Agricolas. Que aldeias tao lavadas!
Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
Como nos fazem grandes barretadas!
V
Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
Dos olivaes escuros. Onde iras?
Regressam os rebanhos das pastagens;
Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
E, silencioso, eu fico para traz.
VI
N'uma collina azul brilha um logar caiado.
Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,
Com teu chapeo de palha, desabado,
Tu continuas na azinhaga; ao lado
Verdeja, vicejante, a nossa vinha.
VII
N'isto, parando, como alguem que se analysa,
Sem desprender do chao teus olhos castos,
Tu comecaste, harmonica, indecisa,
A arregacar a chita, alegre e lisa
Da tua cauda um poucochinho a rastos.
VIII
Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;
O sol abrasa as terras ja ceifadas,
E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
Sobre os teus pes decentes, verdadeiros,
As saias curtas, frescas, engommadas.
IX
E, como quem saltasse, extravagantemente,
Um rego d'agua sem se enxovalhar,
Tu, a austera, a gentil, a intelligente,
Depois de bem composta, deste a frente
Uma pernada comica, vulgar!
X
Exotica! E cheguei-me ao pe de ti. Que vejo!
No atalho enxuto, e branco das espigas
Caidas das carradas no salmejo,
Esguio e a negrejar em um cortejo,
Destaca-se um carreiro de formigas.
XI
Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,
Na natureza tremula de sede,
Arrastam bichos, uvas e sementes;
E atulha, por instincto, previdentes,
Seus antros quasi occultos na parede.
XII
E eu desatei a rir como qualquer macaco!
"Tu nao as esmagares contra o solo!"
E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,
Eu de jasmim na casa do casaco
E d'oculo deitado a tiracolo!
XIII
"As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
Um sublimado corrosivo, uns pos
De solimao, eu, sem maior demora,
Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
Preferes o romantico ao feroz.
XIV
Que compaixao! Julgava ate que matarias
Esses insectos importunos! Basta.
Merecem-te espantosas sympathias?
Eu felicito suas senhorias,
Que honraste com um pulo de gymnasta!"