O Livro de Cesario Verde by Cesario Verde
C >>
Cesario Verde >> O Livro de Cesario Verde
XV
E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros
Luziam, com docura, honestamente;
De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
Lembravam-me fusoes d'immensos oiros,
E o mar um prado verde e florescente.
XVI
Vibravam, na campina, as chocas da manada;
Vinham uns carros a gemer no outeiro,
E finalmente, energica, zangada,
Tu inda assim bastante envergonhada,
Volveste-me, apontando o formigueiro:
XVII
"Nao me incommode, nao, com ditos detestaveis!
Nao seja simplesmente um zombador!
Estas mineiras negras, incancaveis,
Sao mais economistas, mais notaveis,
E mais trabalhoras que o senhor."
O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL
A Guerra Junqueiro
I
AVE MARIAS
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,
Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.
O ceu parece baixo e de neblina,
O gaz extravasado enjoa-me, perturba;
E os edificios, com as chamines, e a turba
Toldam-se d'uma cor monotona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando a via ferrea os que se vao. Felizes!
Occorrem-me em revista exposicoes, paizes:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificacoes somente emmadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetao ao hombro, enfarruscados, seccos;
Embrenho-me, a scismar, por boqueiroes, por beccos,
Ou erro pelos caes a que se atracam botes.
E evoco, entao, as chronicas navaes:
Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!
Lucta Camoes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu nao verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
De um couracado inglez vogam os escaleres;
E em terra n'um tinir de loucas e talheres
Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.
N'um trem de praca arengam dois dentistas;
Um tropego arlequim braceja n'umas andas;
Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;
As portas, em cabello, enfadam-se os logistas!
Vasam-se os arsenaes e as officinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vem sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, a cabeca, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas,
Descalcas! Nas descargas de carvao,
Desde manha a noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infeccao!
II
NOITE FECHADA
Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estao velhinhas e creancas,
Bem raramente encerra uma mulher de "dom"!
E eu desconfio, ate, de um aneurisma
Tao morbido me sinto, ao accender das luzes;
A vista das prisoes, da velha se, das cruzes,
Chora-me o coracao que se enche e que se abysma.
A espacos, illuminam-se os andares,
E as tascas, os cafes, as tendas, os estancos
Alastram em lencol os seus reflexos brancos;
E a lua lembra o circo e os jogos malabares.
Duas egrejas, n'um saudoso largo,
Lancam a nodoa negra e funebre do clero:
N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.
Na parte que abateu no terremoto,
Muram-se as construccoes rectas, eguaes, crescidas;
Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
E os sinos d'um tanger monastico e devoto.
Mas, n'um recinto publico e vulgar,
Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
Bronzeo, monumental, de proporcoes guerreiras,
Um epico d'outr'ora ascende, n'um pilar!
E eu sonho o Colera, imagina a Febre,
N'esta accumulacao de corpos enfezados;
Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
Inflamma-se um palacio em face de um casebre.
Partem patrulhas de cavallaria
Dos arcos dos quarteis que foram ja conventos;
Edade-media! A pe, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.
Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixao defunta! Aos lampeoes distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir as montras dos ourives.
E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobresaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescocos altos
E muitas d'ellas sao comparsas ou coristas.
E eu, de luneta de uma lente so,
Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; as mesas de emigrados,
Ao riso e a crua luz joga-se o domino.
III
AO GAZ
E saio. A noite peza, esmaga. Nos
Passeios de lagedo arrastam-se as impuras.
O molles hospitaes! Sae das embocaduras
Um sopro que arripia os hombros quasi nus.
Cercam-me as lojas, tepidas. Eu penso
Ver cirios lateraes, ver filas de capellas,
Com santos e fieis, andores, ramos, velas,
Em uma cathedral de um comprimento immenso.
As burguezinhas do Catholocismo
Resvalam pelo chao minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.
N'um cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exhala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pao no forno.
E eu que medito um livro que exarcebe,
Quizera que o real e a analyse m'o dessem;
Casas de confeccoes e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.
Longas descidas! Nao poder pintar
Com versos magistraes, salubres e sinceros,
A esguia diffusao dos vossos reverberos,
E a vossa pallidez romantica e lunar!
Que grande cobra, a lubrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
Sua excellencia attrae, magnetica, entre luxo,
Que ao longo dos balcoes de mogno se amontoa.
E aquella velha, de bandos! Por vezes,
A sua traine imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto,
Escarvam, a victoria, os seus mecklemburguezes.
Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
Flocos de pos de arroz pairam suffocadores,
E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,
Mas tudo canca! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
Da solidao regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoleos as armacoes fulgentes.
"Do da miseria!... Compaixao de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de latim!
IV
HORAS MORTAS
O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a chimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portoes! Que arruamentos!
Um parafuso cae nas lages, as escuras:
Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longiqua flauta.
Se eu nao morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeicao das cousas!
Esqueco-me a prever castissimas esposas,
Que aninhem em mansoes de vidro transparente!
O nossos filhos! Que de sonhos ageis,
Pousando, vos trarao a nitidez as vidas!
Eu quero as vossas maes e irmas estremecidas,
N'umas habitacoes translucidas e frageis.
Ah! Como a raca ruiva do porvir,
E as frotas dos avos, e os nomadas ardentes,
Nos vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidoes aquaticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados,
Sem arvores, no valle escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.
E n'estes nebulosos corredores
Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braco dado, uns tristes bebedores.
Eu nao receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes,
Amarelladamente, os caes parecem lobos.
E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as immoraes, nos seus roupoes ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, n'esta massa irregular
De predios sepulchraes, com dimensoes de montes,
A Dor humana busca os amplos horisontes,
E tem mares, de fel, como um sinistro mar!
DE TARDE
N'aquelle "pic-nic" de burguezas,
Houve uma cousa simplesmente bella,
E que, sem ter historia nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarella.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grao de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
Nos acampamos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melao, damascos,
E pao de lo molhado em malvasia.
Mas, todo purpuro a sahir da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!
EM PETIZ
I
DE TARDE
Mais morta do que viva, a minha companheira
Nem forca teve em si para soltar um grito;
E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito,
Como um homemzarrao servi-lhe de barreira!
Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas,
Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
E, tetas a abanar, as maes de largas ancas,
Desciam mais atraz, malhadas e turinas.
Do seio do logar--casitas com postigos--
Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro.
Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
Cujo pregao vos tira ao vosso somno, amigos!
Nos davamos, os dois, um giro pelo valle:
Varzeas, povoacoes, pegos, silencios vastos!
E os fartos animaes, ao recolher dos pastos,
Rocavam pelo teu "costume de percale".
Ja nao receias tu essa vaquita preta,
Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro
Que estavas a tremer, cosida com o muro,
Hombros em pe, medrosa, e fina, de luneta!
II
OS IRMAOSINHOS
Pois eu, que no deserto dos caminhos,
Por ti me expunha immenso, contra as vaccas;
Eu, que apartava as mansas das velhacas,
Fugia com terror dos pobresinhos!
Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouco!
Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
Os mandrioes que rosnam, altos, grossos;
E os cegos que se apoiam sobre o moco.
Ah! Os ceguinhos com a cor dos barros,
Ou que a poeira no suor mascarra,
Chegam das feiras a tocar guitarra,
Rolam os olhos como dois escarros!
E os pobres mettem medo! Os de marmita,
Para forrar, por anno, alguns patacos,
Entrapam-se nas mantas com buracos,
Choramingando, a voz rachada, afflicta.
Outros pedincham pelas cinco chagas;
E no poial, tirando as ligaduras,
Mostram as pernas putridas, maduras,
Com que se arrastam pelas azinhagas!
Querem viver! E picam-se nos cardos;
Correm as villas; sobem os outeiros;
E as horas de calor, nos esterqueiros,
De roda d'elles zumbem os moscardos.
Aos sabbados, os monstros, que eu lamento,
Batiam ao portao com seus cajados;
E um aleijado com os pes quadrados,
Pedia-nos de cima de um jumento.
O resmungao! Que barbas! Que saccolas!
Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
Dormia as noutes por telheiros rotos,
E sustentava o burro a pao d'esmolas.
* * * * *
O minha loura e doce como um bolo!
Affavel hospeda na nossa casa,
Logo que a torrida cidade abraza,
Como um enorme forno de tijolo!
Tu visitavas, esmoler, garrida,
Umas creancas n'um casal queimado;
E eu, pela estrada, espicacava o gado,
N'uma attitude esperta e decidida.
Por lobishomens, por papoes, por bruxas,
Nunca soffremos o menor receio.
Temieis vos, porem, o meu aceio,
Mendigasitas sordidas, gorduchas!
Vicios, sezoes, epidemias, furtos,
De certo, fermentavam entre lixos;
Que podridao cobria aquelles bichos!
E que luar nos teus fatinhos curtos!
* * * * *
Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos,
Ruca, descalca, a trote nos atalhos,
E que lavava o corpo e os seus retalhos
No rio, ao pe dos choupos e dos freixos.
E a douda a quem chamavam a "Ratada"
E que fallava so! Que antipathia!
E se com ella a malta contendia,
Quanta indecencia! Quanta palavrada!
Uns operarios, n'estes descampados,
Tambem surdiam, de chapeu de coco,
Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
Artistas despedidos, desgracados.
Muitos! E um bebedo--o Camoes--que fora
Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
Com uma pala verde sobre um olho!
Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.
E o resto? Bandos de selvagensinhos:
Um nu que se gabava de maroto;
Um, que cortada a mao, cocava o coto,
E os bons que nos tratavam por padrinhos.
Pediam fatos, botas, cobertores!
Outro jogava bem o pau, e vinha
Chorar, humilde, junto da coxinha!
"Cinco reisinhos!... Nobres bemfeitores!...
E quando alguns ficavam nos palheiros,
E de manha catavam os piolhos:
Emquanto o sol batia nos restolhos
E os nossos caes ladravam, resingueiros!
Hoje entristeco. Lembro-me dos coxos,
Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.
Sulcavam as calcadas, de muletas;
Cantavam, no pomar, os pintarroxos!
III
HISTORIAS
Scismatico, doente, azedo, apoquentado,
Eu agourava o crime, as facas, a enxovia,
Assim que um besuntao dos taes se apercebia
Da minha blusa azul e branca, de riscado.
Minaveis, ao serao, a cabecita loira,
Com contos de provincia, ingenuas creaditas:
Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas,
E pondo a gente fina, em postas, de salmoira!
Na noite velha, a mim, como ticoes ardendo,
Fitavam-me os olhoes pesados das ciganas;
Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas;
Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo.
E eu que era um cavallao, eu que fazia pinos,
Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto;
Sonhava que os ladroes--homens de quem m'espanto
Roubavam para azeite a carne dos meninos!
E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando,
Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas,
Gritos de maioraes, mugidos de boiadas,
Branca de susto, meiga e miope, estacando!
NOS
A A. de S. V.
I
Foi quando em dois veroes, seguidamente, a Febre
E o Cholera tambem andaram na cidade,
Que esta populacao, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.
Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas,
(Ate entao nos so tiveramos sarampo),
Tanto nos viu crescer entre uns montoes de malvas
Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo.
Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nos salvamo-nos na fuga.
Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um panico! Nem um navio entrava a barra,
A alfandega parou, nenhuma loja abria,
E os turbolentos caes cessaram a algazarra.
Pela manha, em vez dos trens dos baptisados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessao dos armazens fechados!
Como um domingo inglez na "city", que desterro!
Sem canalisacao, em muitos burgos ermos,
Seccavam dejeccoes cobertas de mosqueiros.
E os medicos, ao pe dos padres e coveiros,
Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos!
Uma illuminacao a azeite de purgueira,
De noite amarellava os predios macillentos.
Barricas d'alcatrao ardiam; de maneira
Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.
Porem, la fora, a solta, exageradamente
Emquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetacao, plethorica, potente,
Ganhava immenso com a enorme mortandade!
N'um impeto de seiva os arvoredos fartos,
N'uma opulenta furia as novidades todas,
Como uma universal celebracao de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.
Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste d'ouvir fallar em orphaos e em viuvas,
E em permanencia olhando o horizonte em brasa,
Nao quiz voltar senao depois das grandes chuvas.
Elle d'um lado, via os filhos achacados,
Um livido flagello e uma molestia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados,
E um salutar refugio e um lucro na vivenda!
E o campo, desde entao, segundo o que me lembro,
E todo o meu amor de todos estes annos!
Nos vamos para la; somos provincianos,
Desde o calor de maio aos frios de novembro!
II
Que de fructa! E que fresca e tempora,
Nas duas boas quintas bem muradas,
Em que o sol, nos talhoes e nas latadas,
Bate de chapa, logo de manha!
O laranjal de folhas negrejantes,
(Porque os terrenos sao resvaladicos)
Desce em socalcos todos os macissos,
Como uma escadaria de gigantes.
Das courellas, que criam cereaes,
De que os donos--ainda!--pagam foros.
Dividem-n'o fechados pitosporos,
Abrigos de raizes verticaes.
Ao meio, a casaria branca assenta
A beira da calcada, que divide
Os escuros pomares de pevide,
Da vinha, n'uma encosta soalhenta!
Entretanto, nao ha maior prazer
Do que, na placidez das duas horas,
Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
No largo tanque as bicas a correr!
Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem,
O seu leito e um atalho de passagem,
Pedregosissimo, entre dois logares.
Como lhe luzem seixos e burgaus
Rolicos! Marinham nas ladeiras
Os renques africanos das piteiras,
Que como aloes espigam altos paus!
Montanhas inda mais longiquamente,
Com restevas, e combros como bocas,
Lembram cabecas estupendas, grossas,
De cabello grisalho, muito rente.
E, a contrastar, nos valles, em geral,
Como em vidraca d'uma enorme estufa,
Tudo se attrae, se impoe, alarga e entufa,
D'uma vitalidade equatorial!
Que de frugalidades nos criamos!
Que torrao espontaneo que nos somos!
Pela outomnal maturacao dos pomos,
Com a carga, no chao pousam os ramos.
E assim postas, nos barros e areiaes,
As maceiras vergadas fortemente,
Parecem, d'uma fauna surprehendente,
Os polypos enormes, diluviaes.
Comtudo, nos nao temos na fazenda
Nem uma planta so de mero ornato!
Cada pe mostra-se util, e sensato,
Por mais finos aromas que rescenda!
Finalmente, na fertil depressao,
Nada se ve que a nossa mao nao regre:
A florescencias d'um matiz alegre
Mostra um sinal--a fructificacao!
* * * * *
Ora, ha dez annos, n'este chao de lava
E argila e areia e alluvioes dispersas,
Entre especies botanicas diversas,
Forte, a nossa familia radiava!
Unicamente, a minha doce irma,
Como uma tenue e immaculada rosa,
Dava a nota galante e melindrosa
Na trabalheira rustica, aldea.
E foi n'um anno prodigo, excellente,
Cuja amargura nada sei que adoce,
Que nos perdemos essa flor precoce,
Que cresceu e morreu rapidamente!
Ai d'aquelles que nascem n'este cahos,
E, sendo fracos, sejam generosos!
As doencas assaltam os bondosos
E--custa a crer--deixam viver os maus!
* * * * *
Fecho os olhos cancados, e descrevo
Das telas da memoria retocadas,
Biscates, hortas, batataes, latadas,
No paiz montanhoso, com relevo!
Ah! Que aspectos benignos e ruraes
N'esta localidade tudo tinha,
Ao ires, com o banco de palhinha,
Para a sombra que faz nos parreiraes!
Ah! Quando a calma, a sesta, nem consente
Que uma folha se mova ou se desmanche,
Tu, refeita e feliz com o teu "lunch",
Nos ajudavas, voluntariamente!...
Era admiravel--n'este grau do Sul!--
Entre a rama avistar o teu rosto alvo,
Ver-te escolhendo a uva diagalvo,
Que eu embarcava para Liverpool.
A exportacao de frutas era um jogo:
Dependiam da sorte do mercado
O boal, que e de perolas formado,
E o ferral, que e ardente e cor de fogo!
Em agosto, ao calor canicular,
Os passaros e enxames tudo infestam;
Tu cortavas os bagos que nao prestam
Com a tua thesoura de bordar.
Douradas, pequeninas, as abelhas,
E negros, volumosos, os besoiros,
Circumdavam, com impetos de toiros,
As tuas candidissimas orelhas.
Se uma vespa lancava o seu ferrao
Na tua cutis--petala de leite!--
Nos collocavamos dez reis e azeite
Sobre a galante, a rosea inflammacao!
E se um de nos, ja farto, arrenegado,
Com o chapeo cacava a bicharia,
Cada zangao voando, a luz do dia,
Lembrava o teu dedal arremessado.
* * * * *
Que d'encantos! Na forca do calor
Desabrochavas no padrao da bata,
E, surgindo da gola e da gravata,
Teu pescoco era o caule d'uma flor!
Mas que cegueira a minha! Do teu porte
A fina curva, a indefinida linha,
Com bondades d'herbivora mansinha,
Eram prenuncios de fraqueza e morte!
A procura da libra e do "schilling",
Eu andava abstracto e sem que visse
Que o teu alvor romantico de "miss"
Te obrigava a morrer antes de mim!
E antes tu, ser lindissimo, nas faces
Tivesses "panno" como as camponezas;
E sem brancuras, sem delicadezas,
Vigorosa e plebeia, inda durasses!
Uns modos de carnivora feroz
Podias ter em vez de inoffensivos;
Tinhas caninos, tinhas incisivos,
E podias ser rude como nos!
Pois n'este sitio, que era de sequeiro,
Todo o genero ardente resistia,
E, a larguissima luz do Meio-dia,
Tomava um tom opalico e trigueiro!
* * * * *
Sim! Europa do Norte, o que suppoes
Dos vergeis que abastecem teus banquetes,
Quando as dockas, com fructas, os paquetes
Chegam antes das tuas estacoes?!
Oh! As ricas "primeurs" da nossa terra
E as tuas frutas acidas, tardias,
No azedo amoniacal das queijarias
Dos fleugmaticos "farmers" d'Inglaterra!
O cidades fabris, industriaes,
De nevoeiros, poeiradas de hulha,
Que pensaes do paiz que vos atulha
Com a fructa que sae dos seus quintaes?
Todos os annos, que frescor se exhala!
Abundancias felizes que eu recordo!
Carradas brutas que iam para bordo!
Vapores por aqui fazendo escala!
Uma alta parreira muscatel
Por doce nao servia para embarque:
Palacios que rodeiam Hyde-Park,
Nao conheceis esse divino mel!
Pois a Coroa, o Banco, o Almirantado,
Nao as tem nas florestas em que ha corcas,
Nem em vos que dobraes as vossas forcas,
Pradarias d'um verde illimitado!
Anglos-Saxonios, tendes que invejar!
Ricos suicidas, comparae comvosco!
Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco,
Facilimo, evidente, salutar!
Opponde as regioes que dao os vinhos
Vossos montes d'escorias inda quentes!
E as febris officinas estridentes
As nossas tecelagens e moinhos!
E o condados mineiros! Extensoes
Carboniferas! Fundas galerias!
Fabricas a vapor! Cutelarias!
E mechanicas, tristes fiacoes!
Bem sei que preparaes correctamente
O aco e a seda, as laminas e o estofo;
Tudo o que ha de mais ductil, de mais fofo,
Tudo o que ha de mais rijo e resistente!
Mas isso tudo e falso, e machinal,
Sem vida, como um circulo ou um quadrado,
Com essa perfeicao do fabricado,
Sem o rythmo do vivo e do real!
E ca o santo sol, sobre isso tudo,
Faz conceber as verdes ribanceiras;
Lanca as rosaceas bellas e fructeiras
Nas searas de trigo palhagudo!
Uma aldeia d'aqui e mais feliz,
Londres sombria, em que scintilla a corte!...
Mesmo que tu, que vives a compor-te,
Grande seio arquejante de Paris!...
Ah! Que de gloria, que de colorido,
quando, por meu mandado e meu conselho,
Ca se empapelam "as macas d'espelho"
Que Herbert Spencer talvez tenha comido!
Para alguns sao prosaicos, sao banaes
Estes versos de fibra succolenta;
Como se a polpa que nos dessedenta
Nem ao menos valesse uns madrigaes!
Pois o que a bocca trava com surprezas
Senao as frutas tonicas e puras!
Ah! N'um jantar de carnes e gorduras
A graca vegetal das sobremesas!...
Jack, marujo inglez, tu tens razao
Quando, ancorando em portos como os nossos,
As laranjas com cascas e carocos
Comes com bestial soffreguidao!...
* * * * *
A impressao d'outros tempos, sempre viva,
Da estremecoes no meu passado morto,
E inda viajo, muita vez, absorto,
Pelas varzeas da minha retentiva.
Entao recordo a paz familiar,
Todo um painel pacifico d'enganos!
E a distancia fatal d'uns poucos annos
E uma lente convexa, d'augmentar.
Todos os typos mortos resuscito!
Perpetuam-se assim alguns minutos!
E eu exagero os casos diminutos
Dentro d'um veo de lagrimas bemdito.
Pinto quadros por lettras, por signaes,
Tao luminosos como os do Levante,
Nas horas em que a calma e mais queimante,
Na quadra em que o verao aperta mais.
Como destacam, vivas, certas cores,
Na vida externa cheia d'alegrias!
Horas, vozes, locaes, physionomias,
As ferramentas, os trabalhadores!
Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar
E a rama do pinheiro! Eu adivinho
O resinoso, o tao agreste pinho
Serrado nos pinhaes da beira mar.
Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
Cheia de nos, d'imperfeicoes, de rachas;
Depois armavam-se, n'um prompto as caixas
Sob uma calma espessa e calaceira!
Feias e fortes! Punham-lhes papel,
A forral-as. E em grossa serradura
Acamava-se a uva prematura
Que nao deve servir para tonel!
Cingiam-n'as com arcos de castanho
Nas ribeiras cortados, nos riachos;
E eram d'assucar e calor os cachos,
Criados pelo esterco e pelo amanho!
O pobre estrume, como tu compoes
Estes pampanos doces como afagos!
"Dedos de dama": transparentes bagos!
"Tetas de cabra": lacteas carnacoes!
E nao eram caixitas bem dispostas
Como as passas de Malaga e Alicante;
Com sua forma estavel, ignorante,
Estas pesavam, brutalmente, as costas!
Nos vinhatorios via fulgurar,
Com tanta cal que torna as vistas cegas,
Os parallelogramos das adegas,
Que tem la dentro as dornas e o lagar!
Que rudeza! Ao ar livre dos estios.
Que grande azafama! Apressadamente
Como soava um martellar frequente,
Vespera da saida dos navios!