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O Livro de Cesario Verde by Cesario Verde

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Ah! Ninguem entender que ao meu olhar
Tudo tem certo espirito secreto!
Com folhas de saudades um objecto
Deita raizes duras de arrancar!

As navalhas de volta, por exemplo,
Cujo bico de passaro se arqueia,
Forjadas no casebre d'uma aldeia,
Sao antigas amigas que eu contemplo!

Ellas, em seu labor, em seu lidar,
Com sua ponta como a da podoas,
Serviam probas, uteis, dignas, boas,
Nunca tintas de sangue e de matar.

E as enxos de martello, que d'um lado
Cortavam mais do que as enxadas cavam,
Por outro lado, rapidas, pregavam,
D'uma pancada, o prego fasquiado!

O meu animo verga na abstraccao,
Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
Mas se de materiaes descubro um veio
Ganho a musculatura d'um Sansao!

E assim--e mais no povo a vida e corna--
Amo os officios como o de ferreiro,
Com seu folle arquejante, seu brazeiro,
Seu malho retumbante na bigorna!

E sinto, se me ponho a recordar
Tanto utensilio, tantas perspectivas,
As tradicoes antigas, primitivas,
E a formidavel alma popular!

Oh! Que brava alegria eu tenho quando
Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
Faco um trabalho technico, violento,
Cantando, praguejando, batalhando!

* * * * *

Os fruteiros, tostados pelos soes,
Tinham passado, muita vez, a raia,
E, espertos, entre os mais da sua laia,
--Pobres camponios--eram uns heroes.

E por isso, com phrases imprevistas,
E colorido e estylo e valentia,
As "haciendas" que ha na "Andalucia"
Pintavam como novos paysagistas.

De como, as calmas, n'essas excursoes,
Tinham aguas salobras por refrescos;
E amarellos, enormes, gigantescos,
La batiam o queixo com sesoes!

Tinham corrido ja na adusta Hespanha,
Todo um fertil plato sem arvoredos,
Onde armavam barracas nos vinhedos,
Como tendas alegres de campanha.

Que pragas castelhanas, que alegrao,
Quanto contavam scenas de pousadas!
Adoravam as cintas encarnadas
E as cores, como os pretos do sertao!

E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
A educacao vistosa das viagens!
Uns por terra partiam e estalagens,
Outros, aos montes, no convez d'um brigue!

So um havia, triste e sem fallar
Que arrastava a maior misantropia,
E, roxo como um figado, bebia
O vinho tinto que eu mandava dar!

Pobre da minha geracao exangue
De ricos! Antes, como os abrutados,
Andar com uns sapatos encebados,
E ter riqueza chimica no sangue!

* * * * *

Mas hoje a rustica lavoura, quer
Seja o patrao, quer seja o jornaleiro,
Que inferno! Em vao o lavrador rasteiro
E a filharada lidam, e a mulher!...

Desde o principio ao fim e uma macada
De mil demonios! Torna-se preciso
Ter-se muito vigor, muito juizo
Para trazer a vida equilibrada!

Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo nao e um passatempo
Com bucolismos, rouxinoes, luar.

A nos tudo nos rouba e nos dizima:
O rapazio, o imposto, as pardaladas,
As osgas peconhentas, achatadas,
E as abelhas que engordam na vindima.

E o pulgao, a lagarta, os caracoes,
E ha inda, alem do mais com que se ateima,
As intemperies, o granizo, a queima,
E a concorrencia com os hespanhoes.

Na vendas, os vinhateiros d'Almeria
Competem contra os nossos fazendeiros.
Dao frutas aos leiloes dos estrangeiros,
Por uma cotacao que nos desvia!

Pois tantos contras, rudes como sao,
Forte e teimoso, o camponez destroe-os!
Venham de la pesados os comboyos
E os "buques" estivados no porao!

Nao, nao e justo que eu a culpa lance
Sobre estes nadas! Puras bagatellas!
Nos nao vivemos so de coisas bellas,
Nem tudo corre como n'um romance!

Para a Terra parir hade ter dor,
E e para obter as asperas verdades,
Que os agronomos cursam nas cidades,
E, a sua custa, aprende o lavrador.

Ah! Nao eram insectos nem as aves
Que nos dariam dias tao difficeis,
Se vos, sabios, na gente descobrisseis
Como se curam as doencas graves.

Nao valem nada a cava, a enxofra, e o mais!
Difficultoso trato das cearas!
Lutas constantes sobre as jornas caras!
Compras de bois nas feiras annuaes!

O que a alegria em nos destroe e mata,
Nao e rede arrastante d'escalracho,
Nem e "suao" queimante como um facho,
Nem invasoes bulhosas d'herva pata.

Podia ter seccado o poco em que eu
Me debrucava e te pregava sustos,
E mais as hervas, arvores e arbustos
Que--tanta vez!--a tua mao colheu.

"Molestia negra" nem "charbon" nao era,
Como um archote incendiando as parras!
Tao pouco as bastas e invisiveis garras,
Da enorme legiao do phylloxera!

Podiam mesmo, com o que contem,
Os muros ter caido as invernias!
Somos fortes! As nossas energias
Tudo vencem e domam muito bem!

Que os rios, sim, que como touros mugem,
Transbordando atulhassem as regueiras!
Chorassem de resina as larangeiras!
Ennegrecessem outras com ferrugem!

As turvas cheias de novembro, em vez
Do nateiro subtil que fertilisa,
Fossem a inundacao que tudo pisa,
No rebanho afogassem muita rez!

Ah! N'esse caso pouco se perdera,
Pois isso tudo era um pequeno damno,
A vista do cruel destino humano
Que os dedos te fazia como cera!

Era essa tysica em terceiro grau,
Que nos enchia a todos de cuidado,
Te curvava e te dava um ar alado
Como quem vae voar d'um mundo mau.

Era a desolacao que inda nos mina
(Porque o fastio e bem peior que a fome)
Que a meu pai deu a curva que a consome,
E a minha mae cabellos de platina.

Era a chlorose, esse tremendo mal,
Que desertou e que tornou funesta
A nossa branca habitacao em festa
Reverberando a luz meridional.

Nao desejemos,--nos os sem defeitos,--
Que os tysicos perecam! Ma theoria,
Se pelos meus o apuro principia,
Se a Morte nos procura em nossos leitos!

A mim mesmo, que tenho a pretensao
De ter saude, a mim que adoro a pompa
Das forcas, pode ser que se me rompa
Uma arteria, e me mine uma lesao.

Nos outros, teus irmaos, teus companheiros,
Vamos abrindo um matagal de dores!
E somos rijos como os serradores!
E positivos como os engenheiros!

Porem, hostis, sobresaltados, sos,
Os homens architectam mil projectos
De victoria! E eu duvido que os meus netos
Morram de velhos como os meus avos!

Porque, parece, ou fortes ou velhacos
Serao apenas os sobreviventes;
E ha pessoas sinceras e clementes,
E troncos grossos com seus ramos fracos!

E que fazer se a geracao decae!
Se a seiva genealogica se gasta!
Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!
Morre o filho primeiro do que o pai!

Mas seja como for, tudo se sente
Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta,
O flor cortada, susceptivel, alta,
Que assim seccaste prematuramente!

Eu que de vezes tenho o desprazer
De reflectir no tumulo! E medito
No eterno Incognoscivel infinito,
Que as ideas nao podem abranger!

Como em paul em que nem cresca a junca
Sei d'almas estagnadas! Nos absortos,
Temos ainda o culto pelos Mortos,
Esses ausentes que nao voltam nunca!

Nos ignoramos, sem religiao,
Ao rasgarmos caminho, a fe perdida,
Se te vemos ao fim d'esta avenida
Ou essa horrivel aniquilacao!...

E o minha martyr, minha virgem, minha
Infeliz e celeste creatura,
Tu lembras-nos de longe a paz futura,
No teu jazigo, como uma santinha!

E emquanto a mim, es tu que substitues
Todo o mysterio, toda a santidade,
Quando em busca do reino da verdade
Eu ergo o meu olhar aos ceos azues!


III

Tinhamos nos voltado a capital maldicta,
Eu vinha de polir isto tranquillamente,
Quando nos seccedeu uma cruel desdita,
Pois um de nos caiu, de subito, doente.

Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
Da-me rebate ainda o seu tossir profundo!
E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
Com que se despediu de todos e do mundo!

Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
Nao sei d'um infortunio immenso como o seu!
Vio o seu fim chegar como um medonho muro,
E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!

De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
Como tanta crueldade e tantas injusticas,
Se inda trabalho e como os presos no degredo,
Com planos de vinganca e ideas insubmissas.

E agora, de tal modo a minha vida e dura,
Tenho momentos maus, tao tristes, tao perversos,
Que sinto so desdem pela litteratura,
E ate desprezo e esqueco os meus amados versos!



PROVINCIANAS


I

Ola! Bons dias! Em marco
Que mocetona e que joven
A terra! Que amor esparso
Corre os trigos, que se movem
As vagas d'um verde garco!

Como amanhece! Que meigas
As horas antes de almoco!
Fartam-se as vaccas nas veigas
E um pasto orvalhado e moco
Produz as novas manteigas.

Toda a paizagem se doura;
Tibida ainda, que frecas!
Bella mulher, sim senhora,
N'esta manha pittoresca,
Primaveral, creadora!

Bom sol! As sebes d'encosto
Dao madresilvas cheirosas
Que entotecem como um mosto
Floridas, as espinhosas
Subio-lhes o sangue ao rosto.

Cresce o relevo dos montes,
Como seios offegantes;
Murmuram como umas fontes
Os rios que dias antes
Bramiam galgando pontes.

E os campos, milhas e milhas,
Com povos d'espaco a espaco,
Fazem-se as mil maravilhas;
Dir-se-ia o mar de sargaco
Glauco, ondulante, com ilhas!

Pois bem. O inverno deixou-nos.
E certo. E os graos e as sementes
Que ficam d'outros outonos
Acordam hoje frementes
Depois d'uns poucos de somnos.

Mas nem tudo sao descantes
Por esses longos caminhos
Entre favaes palpitantes
Ha solos bravos, maninhos,
Que expulsam seus habitantes!

E n'esta quadra d'amores
Que emigram os jornaleiros
Ganhoes e trabalhadores!
Passam clans de forasteiros
Nas terras de lavradores.

Tal como existem mercados
Ou feiras, semanalmente
Para comprarmos os gados
Assim ha pracas de gente
Pelos domingos calados!

Emquanto a ovelha arredonda,
Vao tribus de sete filhos,
Por varzeas que fazem onda,
Para as derregas dos milhos
E molhadellas da monda.

De roda pulam borregos;
Enchem entao as cardosas
As mocas d'esses labregos
Com altas botas bartrosas
De se atirarem aos regos!

Eil-as que vem as manadas
Com caras de soffrimento,
Nas grandes marchas forcadas!
Vem ao trabalho, ao sustento,
Com fouces, sachos, enchadas!

Ai o palheiro das servas
Se o feitor lhe tira as chaves!
Ellas chegam as catervas,
Quando acasalam as aves
E se fecundam as hervas!...


II

Ao meio dia na cama,
Branca fidalga o que julga
Das pequenas da su'ama?!
Vivem minadas da pulga
Negras do tempo e da lama.

Nao e caso que a commova
Ver suas irmans de leite,
Quer faca frio, quer chova,
Sem uma mama que as deite
Na tepidez d'um alcova?!

Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta.


NOTAS

Cesario Verde (Jose Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa,
freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no
Paco do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. Jose
Anastacio Verde, negociante, e da sr. D. Maria da Piedade dos
Santos Verde.

* * * * *

A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi
o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no
Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario
Verde, precedendo-os de uma carta de apresentacao a Manoel d'Arriaga.
Esses versos nao se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o
poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem.
Realmente o eram--pela hesitacao do neophyto.

* * * * *

Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnacao foi hoje
respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as
poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composicoes de
menos folego.

* * * * *

No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra
de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da
tarde, do Porto, da Renascenca, da Revista de Coimbra, da Tribuna,
da Illustracao, etc., nao sera discutida pelo auctor d'estas linhas.
Nao e hoje discutida, nem o sera jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da
promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade;
--ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia.

Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com
os insultadores do poeta. Inutil:--nenhum d'elles sobreviveu aos
insultos.

* * * * *

Os 200 exemplares d'este livro serao distribuidos pelos parentes,
pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem
como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuicao
sera publicada. As reclamacoes justificadas serao attendidas.

1887.

S. P.


INDICE

Dedicatoria
Prefacio

VERSOS

CRISE ROMANESCA

Deslumbramentos
Septentrional
Meridional
Ironias do Desgosto
Humilhacoes
Responso

NATURAES

Contrariedades
A debil
N'um bairro moderno
Crystalisacoes
Noites gelidas
Sardenta
Flores velhas
Noite fechada
Manhans brumosas
Frigida
De verao
O sentimento d'um occidental
De tarde
Em petiz
Nos
Provincianas

Notas






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John Crace digests A Question of Upbringing by Anthony Powell

My English teacher is wearing a barrister's wig. He turns and points towards me as I sit trembling in the dock. "Members of the jury, I put it to you that this man, Tom Robinson, is innocent," he says, rather lugubriously. I want to protest. I want to shout that no, I am not Tom Robinson, but yes, I am innocent! But the words won't come out.

Then I wake up. It's another literary dream – one that's troubled me ever since I studied Harper Lee's To Kill a Mockingbird for GCSE.

Most of the time I'm disappointed to leave my literary dreams, waking to realise that I'm not really ensconced with with the boozing Welsh pensioners from Kingsley Amis's The Old Devils or haven't really been thrashing Harry Potter's Quidditch team. I remember with fondness a skiing trip with William Shakespeare and the delightful discovery that Don DeLillo was serving drinks behind the bar in my local pub.

It's not all sunshine, though. Tom Wolfe once ruined a trip to New York, shouting at me across Fifth Avenue: "You're not even familiar with my work – get outta town, asshole!" But that's nothing on Howard Jacobson. I spent a summer discovering his novels during my waking hours and bumping into him in my sleep. I'd see him in a local restaurant and tell him how much I was enjoying his novels. "Oh right," he'd snap, "that old chestnut, huh?" When I met him for real last year he was, in fact, charm personified. I didn't tell him about the dreams.

But enough about my subconscious, what about yours? It's Friday: forget about work and tell me all about your literary dreams. Don't hold back – it's not like we'll read anything into it.

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1000 novels is a seven-part series free with the Guardian and the Observer. Each day covers a different genre: love, crime, comedy, family & the self, state of the nation, sci-fi & fantasy and travel & adventure.

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